ANMELDENO desprezo de Augusto não se limitava às palavras. Até a maneira como encarava a irmã deixava claro o pouco que restava de sua consideração por ela.— Já passou pela sua cabeça que Arthur só cedeu à sua chantagem porque ama Larissa? Porque não suportava a ideia de ver ela sofrer, nem um pouco?Deixar de anunciar o casamento naquela noite foi um golpe duro para Larissa, sem dúvida. Mas, se Samuel não passasse mal, bastava Arthur explicar suas razões e resolver rapidamente o problema das provas que Pamela guardava. Nada daquilo precisaria abalar tanto a relação dos dois.Pamela, porém, com todo o poder dos Duarte à disposição, escolheu justamente o caminho mais estúpido. E acabou cavando a própria ruína.— Poupe seu discurso! — Pamela o interrompeu, furiosa. — A verdade é que Larissa não vai perdoar Arthur, nem sabendo de tudo!Seus olhos se estreitaram.— E você viu o que aconteceu hoje! Ela desmaiou de tanto sofrer. Tanto a situação de Samuel quanto a descoberta de que matou a própria
— Arthur...O nome saiu num fio de voz, rouco, enquanto Larissa conseguia abrir apenas uma fresta dos olhos.— Larissa... Você acordou mesmo... Acordou!Uma gota fria caiu sobre o dorso de sua mão.Arthur se levantou às pressas para apertar o botão de chamada. Entre a névoa que ainda lhe turvava a visão, Larissa distinguiu a agitação dele, aquela alegria quase incrédula que mal conseguia conter.Mas estava exausta. Não era apenas o corpo. Até manter os olhos abertos exigia uma força que já não encontrava em si.As pálpebras voltaram a pesar, e ela mergulhou outra vez no sono.Quando despertou novamente, já passava da meia-noite.A luz suave do quarto iluminava Arthur, sentado junto à cama. Ele continuava ali, sem sair de perto dela.Larissa o observou, ainda meio perdida entre o sono e a realidade.Durante todo aquele tempo em que permaneceu inconsciente, uma voz chegou até ela, falando sem parar, tentando alcançá-la através da escuridão.Era a voz dele.— Larissa, acordou? Está sentin
Elias sabia o quanto Alisa e Larissa eram próximas. Até seus olhos, habitualmente tão serenos e reservados, ganharam uma suavidade rara.— Existe uma expressão popular pra isso: coração partido. Quando a dor é grande demais, a mente pode tentar fugir da realidade e se refugiar num mundo onde encontra aquilo de que mais sente falta. Agora, o que podemos fazer é ficar perto dela, conversar, tentar ajudá-la a encontrar o caminho de volta.Alisa não conseguiu segurar as lágrimas.Quanto Larissa precisava estar sofrendo para que até a realidade se tornasse insuportável? Para preferir aquele mundo escondido dentro de si a tudo o que ainda existia aqui fora?Elias franziu levemente a testa, mas não disse nada. Tirou um pacote de lenços do bolso do jaleco e o estendeu a ela.Alisa ficou surpresa. Ergueu o rosto molhado para ele, sem esperar aquela delicadeza.— Obrigada...Dentro do quarto, Arthur estava sentado à beira da cama, de calça preta e camisa branca. Segurava a mão de Larissa junto a
Heloísa a acolheu nos braços, dando leves tapinhas em suas costas. O toque, a voz, aquele jeito de cuidar dela... Nada mudou. Era a mesma ternura de que Lari sentia tanta falta.— Minha bobinha. Você é o orgulho da mamãe. Como é que eu poderia sentir raiva de você? Muito menos te odiar?Lari ergueu o rosto molhado de lágrimas.— Mas o sistema que eu criei ainda não estava pronto. Foi por causa daquele erro que você morreu, mamãe... Fui eu que te matei. A culpa é toda minha.Sua voz se quebrou.— E agora o vovô também está sofrendo por minha causa. Eu não sirvo pra nada, né, mamãe?As palavras saíam entre soluços, trazendo consigo toda a culpa que Lari passou tanto tempo tentando esconder. As lágrimas não paravam, e Heloísa as enxugava com uma delicadeza que só fazia a menina chorar mais.— Ei, minha menina... Não põe tudo nas suas costas. Você era tão novinha e já conseguia desenvolver um sistema daqueles. Uma pequena gênia! Sabe o orgulho que eu sentia de você?Heloísa acariciou seu
— Vô... Vô, acorda, por favor... Acorda pra mim...As lágrimas embaçavam tudo à sua frente. Larissa abraçou os ombros de Samuel e tentou sacudi-lo de leve, implorando por uma reação. A dor era tão violenta que parecia haver uma mão esmagando seu coração por dentro.Durante todos aqueles dias, fez o possível para não pensar na morte da mãe. Sabia que, se cedesse à culpa, talvez não conseguisse mais se reerguer. E, se desmoronasse, poderia perder até o Grupo Moretti, que tanto lutava para proteger.Por isso continuou trabalhando, enfrentando um problema atrás do outro, obrigando-se a afastar a imagem de Heloísa presa naquele carro em chamas.Mas, durante o sono, não havia como fugir.Dez anos se passaram, e o pesadelo continuava o mesmo.A noite tingida de vermelho pelo incêndio. A fumaça negra subindo em ondas. Sua mãe presa dentro do carro, lutando desesperadamente enquanto o fogo tomava tudo.Até não haver mais movimento.Até restar apenas um corpo carbonizado, diante dos olhos dela e
A esperança de ver Samuel finalmente acordado deixou Larissa num misto de alegria e ansiedade durante todo o trajeto. Chegou ao hospital o mais depressa que pôde e, ao avistar Arthur conversando com o professor Valério diante do quarto, correu até os dois.— Meu avô acordou?A pergunta saiu antes mesmo que recuperasse o fôlego.Desde que Samuel entrou em coma, Larissa vivia entre o medo de perdê-lo e a culpa pelo que aconteceu. Não houve um único dia em que deixasse de desejar vê-lo abrir os olhos. Agora, tão perto daquela possibilidade, mal conseguia controlar o tremor das mãos.Arthur encontrou a esperança estampada no rosto dela, e suas sobrancelhas se contraíram.— Larissa, primeiro, preciso te explicar uma coisa...Ele nem terminou.Bastou aquela expressão para o sangue fugir do rosto de Larissa.— Explicar o quê? — A voz lhe saiu trêmula. — Se for notícia ruim, não me conta. Eu mesma vou entrar e ver.Tentou passar por ele, mas Arthur segurou seu braço e a puxou para um abraço.O
— Sr. Ciro, hoje é o dia de você e a Larissa assinarem no cartório. Você não vai mesmo? Você simplesmente não apareceu. Não tem medo de ela explodir?— Explodir? Todo mundo sabe que a Larissa vive grudada no Sr. Ciro, igual carrapato. Mesmo se ela descobrir que ele faltou por causa da Mel, ela engol
A provocação de Arthur acendeu de imediato a timidez de Larissa. Do pescoço ao rosto, tudo nela ficou vermelho. Mordendo o lábio, ela ergueu-se na ponta dos pés e beijou a bochecha dele com delicadeza, como uma borboleta tocando uma pétala.— Assim está bom?Com o beijo, já tentou se afastar.Arthur
As palavras de Larissa deixaram Samuel incrédulo. Ele confirmou mais de uma vez e, ao ter certeza, riu com ainda mais entusiasmo, a alegria evidente.— Ótimo. Casaram, então está decidido. Venham me ver com Arthur.— Claro, vovô. — Respondeu ela, com sorriso doce.Assim que desligou, a porta do quar
Por sorte, o toque do celular salvou Larissa do constrangimento.— Alô?O coração acelerou. Ela atendeu às pressas.Do outro lado, veio a voz provocadora da modelo famosa e melhor amiga, Alisa Sampaio:— Então? Minha Srta. Larissa assinou ontem. Aposto que à noite já foi aproveitar o corpo jovem e f






