ANMELDENO homem virou-se devagar. Contra a luz, os traços do rosto dele pareciam ainda mais marcados, com as têmporas grisalhas, e os olhos frios lançaram um olhar para Aurora.— Não se meta no que não é da sua conta.Aurora andou até ele com um passo um pouco irregular e passou os braços em volta do pescoço dele:— Ficamos tanto tempo sem nos ver, eu deixo você a olhar de longe e você ainda reclama?O homem afastou as mãos de Aurora do próprio pescoço:— Não faça mais isso.…Naquele dia, acontecia uma meia maratona no Parque Ecológico. Ivone era a repórter escalada para cobrir o evento. Antes mesmo de o carro se aproximar da área da prova, só de ver ao longe homens e mulheres correndo, ela já sentia a energia vibrante do lugar.No meio da competição, Ivone pegou uma garrafa de água e bebeu. Não muito longe, um catador idoso recolhia lixo. Quando ela terminou cerca de um terço da água, caminhou até ele e entregou a garrafa vazia.— Obrigado. — O catador agradeceu.Ivone sorriu e balançou a ca
O sorriso tinha um traço de esforço e arrependimento amargo. Aurora puxou o ar com força e segurou de volta a mão de Ivone:— Ivi.Atrás da máscara caída surgiu um rosto que Ivone conhecia bem. Ela ficou parada por um segundo:— Tia Aurora!Ivone apertou ainda mais o braço com que segurava Aurora. Um medo tardio subiu pelo seu peito:— Tia, a senhora se machucou? Bateu em algum lugar?Ela colocou o outro braço nas costas de Aurora, ajudou-a a levantar do chão e bateu a poeira do vestido dela.Aurora respirou fundo, balançou a cabeça e falou:— Só ralei o joelho.— Deixa eu ver.Ivone se agachou e levantou cuidadosamente a barra do vestido até a altura do joelho. A pele estava toda avermelhada.Aurora baixou os olhos e olhou:— Está tranquilo. Você estava devagar. A batida não foi forte.— Eu levo a senhora ao hospital para um exame.Ivone abriu a porta do banco do passageiro.Aurora segurou a mão dela:— Não precisa. Por causa de um machucadinho desses, não vou a hospital algum. Eu não
Maia se virou e apertou o botão da campainha ao lado da cama.Pouco depois, uma enfermeira bateu na porta e entrou:— Srta. Maia, o que aconteceu?Maia lançou um olhar rápido para a porta do quarto, que estava meio aberta, e falou com calma:— Eu quero trocar de roupa, mas não consigo alcançar a roupa sozinha. Você pode fechar a porta e trazer a roupa para mim?A enfermeira assentiu:— Claro.Ela se virou para fechar a porta. Um dos seguranças olhou de lado, desconfiado. A enfermeira se apressou em explicar:— A Srta. Maia vai trocar de roupa.O segurança não falou nada. Ele só ouviu o som da porta se fechando.A enfermeira pegou o pijama de paciente dobrado em cima do sofá:— Srta. Maia, a senhora quer que eu ajude a trocar?Enquanto falava, ela puxou a cortina ao redor da cama.Maia sorriu com doçura:— Quero, sim. Muito obrigada.Os seguranças esperaram na porta por uns cinco minutos. Só então a porta atrás deles se abriu e a enfermeira saiu do quarto. Eles olharam pelo visor e vira
Naquele momento, Maia estava pintando no jardim. Ela segurava o pincel com uma mão e deslizava o dedo pela tela do celular com a outra enquanto abria a mensagem.Quando ela enxergou claramente que a pessoa nos braços de Fabiano, no vídeo, era Ivone, o pincel que ela segurava na outra mão quebrou-se ao meio.Ouviu-se um estalo seco, e o cabo do pincel caiu no chão, com um leve traço de sangue.A empregada ouviu o barulho e correu apressada até ela:— Como esse pincel quebrou? Srta. Maia, a sua mão não está machucada, né? Ai, está sangrando!Maia lançou um olhar rápido e impassível para a palma da mão, onde o corte provocado pelo cabo do pincel tinha feito brotar um pouco de sangue. Ela sorriu de leve:— Não é nada.Ela pegou duas folhas de papel ao acaso e limpou o sangue.Na hora do jantar, Maia comeu só um pouco e perdeu o apetite. Ela largou os talheres e, por mais que a empregada insistisse, não tocou em mais nada.A empregada hesitou por um instante e falou:— O Sr. Fabiano se preo
Quando Ivone viu a reação de Fabiano, ela riu baixinho, com ironia. Ele tinha adivinhado na primeira tentativa. Ele nem sequer tentou dar uma explicação.— Por quê? — Ela perguntou em um sussurro.Fabiano percebeu que os dedos com que ela se apoiava na cabeceira do leito estavam tremendo. O olhar dele se tornou ainda mais escuro e profundo:— Eu não quero me casar.Ela finalmente teve a resposta. E não era muito diferente do que ela já imaginava.Ivone assentiu, como se tivesse enfim ficado satisfeita, virou de costas e caminhou em direção à porta do quarto. Assim que a mão dela encostou na maçaneta, Fabiano segurou o pulso dela.A ponta dos dedos dele estava fria.— O médico pediu para você descansar mais.— Eu quero ir embora. — O rosto de Ivone continuava calmo, mas havia um traço de loucura contida por baixo daquela tranquilidade. — Eu já joguei as cinzas dos meus pais no mar. Você não consegue mais me chantagear.Fabiano fitou o rosto pálido dela, com o olhar pesado:— Eu não quer
Uma parede inteira do salão de eventos era de vidro. Quando Fabiano caminhou naquela direção carregando Ivone nos braços, todas as pessoas dentro do salão o viram.O que deixou todos chocados foi que, no rosto de Fabiano, que sempre escondia suas emoções com perfeição, surgiu um leve traço de nervosismo.— Não é o Sr. Fabiano?— Por que o Sr. Fabiano está carregando alguém nos braços?…A colega de trabalho de Ivone reconheceu rapidamente, pelo traje da pessoa nos braços de Fabiano, que se tratava de Ivone. Ela e outro colega se levantaram às pressas para segui-los.Quando chegaram à porta, eles viram que o rosto de Ivone estava quase sem cor. Ela estava mole, encostada no peito de Fabiano, completamente inconsciente.— Sr. Fabiano, o que aconteceu com Ivone? — Perguntou a colega.Os responsáveis pelo evento também correram para fora. Nesta conferência, Fabiano era a figura mais importante. Se ele não estivesse presente, como a reunião continuaria? E, além disso, por que ele carregava