เข้าสู่ระบบ— Aqui fora! — disse a pessoa do outro lado da linha.
E então, nada.A ligação caiu.Clarisse franziu levemente a testa, afastando o celular do ouvido como se aquilo pudesse fazer mais sentido à distância.
— Aqui fora…? — repetiu para si, quase em um sussurro.
Seu coração acelerou por um instante — não de medo, mas de estranheza. O tom de voz não era ameaçador, e mesmo sendo irresponsável, não relutou em seguir caminho até a porta da escola, empurrando o portão com cautela.
O sol da manhã a atingiu de imediato, junto ao movimento habitual da rua. Por alguns segundos, não viu nada além do comum.
Até que viu.
Encostada despreocupadamente em um carro, com óculos escuros grandes demais para esconder o sorriso evidente, estava sua melhor amiga, Isabella.
— Surpresa! — Isabella Baltazar ergueu os braços.
Alta e elegante, com postura impecável e uma presença que naturalmente atraía olhares.
Clarisse ficou imóvel por um segundo, sem acreditar na imagem diante dos seus olhos.
— Isabella?
A reação veio como um rompimento — rápido, espontâneo. Clarisse atravessou a pequena distância entre elas quase correndo, envolvendo a amiga em um abraço apertado, daqueles que não pedem permissão.
— Você é impossível! — murmurou, rindo baixo contra o ombro dela.
— Eu prefiro “inesquecível”, mas impossível também serve — respondeu Isabella, divertida, retribuindo o abraço com a mesma intensidade.
Isabella se afastou só o suficiente para observar o rosto de Clarisse com atenção. O sorriso ainda estava ali, mas seus olhos… avaliavam.
— Você demorou mais do que eu esperava — comentou, casual. — E me decepcionou por ser irresponsável o suficiente para se encontrar com um desconhecido que diz “aqui fora”. — Isabella tentou, engrossando a voz.
— Um sequestrador ou golpista de verdade não diria algo como “aqui fora”— retrucou Clarisse, ainda rindo. — Número desconhecido? Sério?
Isabella deu de ombros.
— Queria emoção. E funcionou, não funcionou?
Clarisse balançou a cabeça, já rendida.
— Funcionou. Eu quase liguei para a polícia achando que era golpe. — disse, humorada.
— Olha que ousadia, me confundir com golpista — disse Isabella, levando a mão ao peito em falso drama. — Eu só aplico golpes emocionais.
Clarisse riu de novo, mais leve agora.
— O que você está fazendo aqui? Você não estava em São Paulo?
— Estava. — Isabella tirou os óculos, revelando os olhos âmbar que sempre pareciam saber mais do que diziam. — Mas achei que você merecia uma pausa da sua vida perfeitamente organizada, minha amiguinha.
Clarisse arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Isso me soa perigoso.
— E é — respondeu Isabella, abrindo a porta do carro. — Entra.
— Isabella! — Clarisse retrucou manhosa. — Não posso… tenho aula à tarde.
Isabella a encarou e sorriu, confiante.
— Correção! — exclamou — Você tinha aula à tarde, hoje a senhorita Grigio é totalmente e exclusivamente responsabilidade minha. Esqueceu que a diretora dessa escola é minha madrinha?
Clarisse mordeu o lábio inferior. Incrédula com a situação.
— Você vai me colocar em problemas. — murmurou — É tão importante eu ir assim? — argumentou.
— Confia em mim! Eu nunca te coloco em problemas. — O tom suavizou, mas havia algo firme ali. — Como sempre.
Clarisse hesitou por menos de um segundo antes de entrar no carro. Nunca precisou de mais do que isso quando se tratava da confiante Isabella Baltazar.
O centro da cidade estava mais movimentado do que o habitual quando pararam. Isabella estacionou com facilidade, como se conhecesse cada centímetro dali — o que, de certa forma, era verdade.
Clarisse olhou ao redor, curiosa.
— Aonde você está me levando?
— Você vai descobrir — respondeu Isabella, já saindo do carro. — E eu espero uma reação dramática. Trabalhei duro pra isso.
Subiram uma escada discreta ao lado de uma vitrine elegante. O som da rua foi ficando para trás, substituído por um silêncio mais refinado, quase íntimo.
Quando Isabella abriu a porta, Clarisse parou.
O ateliê era amplo, iluminado por janelas altas. Tecidos delicados repousavam em araras organizadas, e manequins exibiam peças em diferentes estágios de criação.
No centro, protegido por uma capa translúcida, estava ele.
Clarisse deu um passo à frente, como se fosse puxada por algo invisível.
Isabella observou em silêncio, cruzando os braços.
— Gostou do meu novo espaço? — comentou, casual, com um leve orgulho disfarçado. — Mais um dos meus caprichos imobiliários.
Clarisse soltou um pequeno riso, ainda encantada com o ambiente.
— Você nunca para, não é?
— Não mesmo. — Isabella deu de ombros. — Mas esse aqui, é especial!
Ela caminhou até o vestido, os dedos tocando o tecido com cuidado quase reverente.
— Eu ia esperar mais um pouco — disse — mas paciência nunca foi o meu forte.
Com um gesto simples, puxou o tecido que o cobria.
O mundo pareceu diminuir por um instante.
Clarisse levou a mão aos lábios, sem dizer nada.
Os adornos de cristais azul-turquesa captavam a luz de forma delicada, entrelaçados ao tecido branco com uma harmonia quase nostálgica.
— Eu… — começou, mas a voz falhou.
Isabella a observou, mais séria agora.
— Reconhece?
Clarisse piscou, os olhos percorrendo cada detalhe com mais atenção.
E então… entendeu.
— Esse tecido…
— Era dela — completou Isabella, mais suave. — Da sua mãe.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os anteriores.
Quase incômodo.
— Gabriel me ajudou a conseguir o tecido. — continuou Isabella, com naturalidade, como se aquilo não fosse um gesto enorme. — E minha mãe ficou responsável por restaurar o que dava. Eu só… dei uma atualizada.
Clarisse deixou escapar uma pequena risada entrecortada, ainda emocionada. O vestido era diferente do retrato de sua mãe. Ela conhecia perfeitamente as mangas bufantes e a gola alta, mas agora, muito mais moderno… mas ainda era ele, juntos aos cristais que eram uma herança de família, dada de sua avó paterna a sua falecida mãe.
— “Atualizada”… claro. — Clarisse retrucou entre as lágrimas.
— Eu tenho uma reputação a manter — respondeu Isabella, com um meio sorriso. — E achei que você merecia algo que fosse… seu. Mas que também fosse dela.
Clarisse assentiu devagar, ainda sem conseguir desviar os olhos.
— Ele é… perfeito.
— Eu sei — respondeu Isabella, sem falsa modéstia. — Agora vem. Vamos ver se ele ainda é perfeito em você.
Cinco anos depois...O sol da Toscana derramava-se preguiçosamente sobre os extensos campos de lavanda, banhando a paisagem com uma luz dourada que parecia suspender o tempo. A brisa atravessava as fileiras de flores em movimentos suaves, carregando consigo um perfume delicado que invadia cada canto da propriedade. Ao longe, as colinas desenhavam um horizonte sereno, coberto por vinhedos, oliveiras centenárias e antigas construções de pedra que pareciam guardar séculos de histórias. Clarisse permanecia imóvel sobre a varanda, apoiando delicadamente as mãos no corrimão de ferro trabalhado enquanto observava a cena diante de si. Ainda existiam dias em que precisava lembrar a si mesma que aquela era, de fato, a sua realidade.Poucos metros adiante, o pequeno Lorenzo corria livremente entre os campos, gargalhando enquanto tentava alcançar dezenas de borboletas que insistiam em escapar de suas pequenas mãos. Os cabelos claros balançavam ao sabor do vento, e os olhos azuis, exatamente iguais
Os dias que se seguiram foram dedicados à recuperação, mas também ao florescimento silencioso de um amor que, durante tanto tempo, precisou existir entre sombras. A violência daquela noite na cabana ainda permanecia gravada em ambos. Havia cicatrizes visíveis, como a perna engessada de Alfonso e os hematomas que lentamente desapareciam da pele de Clarisse, e outras muito mais profundas, invisíveis aos olhos, que somente o tempo seria capaz de amenizar. Ainda assim, pela primeira vez desde que seus caminhos se cruzaram, eles não precisavam lutar contra o mundo para permanecer juntos. A mansão, que durante tantos anos servira como palco de segredos, perdas e lembranças dolorosas, transformou-se lentamente em um lugar diferente. Os corredores antes silenciosos passaram a guardar risos discretos, conversas demoradas e pequenos gestos de carinho que nenhum dos dois imaginava um dia viver.Com a perna imobilizada, Alfonso viu-se obrigado a desacelerar pela primeira vez em muitos anos. Acostu
Alfonso retornou à mansão com a sensação de que algo estava errado. O silêncio era pesado, e a ausência de Arthur na porta de entrada era um mau pressentimento. Ao adentrar o hall, a cena o atingiu como um soco: Arthur e os seguranças caídos, inconscientes. A raiva, fria e calculista, começou a ferver em suas veias. Ele sabia. Ele sabia que Nicholas havia feito isso.Alfonso correu para os aposentos de Clarisse, o coração martelando contra as costelas. O quarto estava vazio, o roupão de seda jogado sobre a cama, um rastro de desordem que confirmava os seus piores medos. Ele sentiu um desespero que nunca havia experimentado antes. Clarisse estava em perigo, e a culpa o corroía. Ele a havia deixado sozinha, vulnerável, e agora ela estava nas mãos de um louco.Ele chamou Arthur, que começava a recobrar a consciência. — Onde ele a levou? — A voz de Alfonso era um rosnado, carregada de uma fúria que Arthur nunca havia ouvido.Arthur, com a cabeça latejando, tentou se levantar. — Senhor... N
Os dias que se seguiram foram um turbilhão de paixão e descoberta. Clarisse permaneceu na mansão de Alfonso, isolada do mundo exterior, imersa em uma bolha de desejo e luxo. Eles passavam horas na cama, explorando os corpos um do outro, a atração entre eles queimando como um fogo inextinguível.Alfonso era um amante intenso, exigente, mas também surpreendentemente terno. Ele a tratava como uma rainha, satisfazendo todos os seus desejos, protegendo-a do escândalo que a sua fuga havia causado na cidade. Clarisse, por sua vez, sentia-se viva, desejada, livre. A culpa por ter abandonado Nicholas havia desaparecido, substituída por uma certeza inabalável de que ela havia feito a escolha certa.No entanto, a sombra da dívida de Gabriel ainda pairava sobre ela. Uma tarde, enquanto descansavam após fazerem amor, Clarisse tocou no assunto.— Alfonso... e o Gabriel? A dívida dele...Alfonso acariciou os cabelos dela, os olhos azuis fixos no teto. — A dívida está paga, Clarisse. Eu a perdoei no m
A noite anterior ao casamento arrastava-se como um pesadelo interminável. Clarisse estava sentada no chão do seu quarto, as pernas encolhidas contra o peito, o vestido de noiva pendurado no armário como um fantasma a assombrá-la. O hematoma em seu rosto, embora disfarçado por maquiagem, latejava a cada batida do seu coração. As palavras de Alfonso ecoavam em sua mente: "A sua liberdade está a um passo de distância."Mas ela não fora. O medo, a culpa e a promessa vazia de Nicholas a haviam prendido. O relógio marcou meia-noite, e com ele, a certeza de que o jato de Alfonso havia partido sem ela. A gaiola de ouro estava trancada, e ela havia jogado a chave fora.O dia do casamento amanheceu cinzento. Clarisse moveu-se no automático, permitindo que Isabella e Carol a arrumassem. Ela não sentia nada. Nem alegria, nem tristeza. Apenas um vazio profundo e anestesiante.Quando as portas da igreja se abriram, a marcha nupcial soou como uma marcha fúnebre. Nicholas a esperava no altar, o sorris
Os dias seguintes foram um borrão de dor e isolamento para Clarisse. O hematoma em seu rosto era um lembrete constante da violência de Nicholas, e a vergonha a impedia de sair de casa. Ela inventava desculpas para Isabella, para a escola, para o mundo. Apenas Gabriel, que a visitava diariamente, sabia a verdade, e a sua culpa era palpável.Clarisse se escondia em seu quarto, as cortinas fechadas, o mundo exterior reduzido a um sussurro distante. Ela se sentia presa, encurralada entre a violência de Nicholas e a chantagem de Alfonso. Não havia saída, não havia para onde correr. O casamento se aproximava, e a ideia de se casar com o homem que a agredira, que a humilhara, era um pesadelo que ela não conseguia escapar.Uma tarde, enquanto Clarisse estava encolhida no sofá, um som suave na porta a fez sobressaltar. Era Arthur. Ele segurava uma pequena cesta, com um sorriso discreto nos lábios. — Senhorita Grigio. O senhor Albuquerque pediu que eu lhe entregasse isso. — Arthur concluiu, este







