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A primeira coisa que surgiu enquanto eu recuperava a consciência foi a dor. Uma dor surda que parecia pesar sobre todo o meu corpo.
Eu não era estranho àquele tipo de dor. Ela havia passado por cada missão. Eu mesmo havia treinado e me preparado para suportá-la.
Eu não conseguia, por nada neste mundo, lembrar por que estava sentindo aquilo AGORA.
Meus olhos se abriram lentamente, encontrando uma visão dolorosamente ofuscante. Insisti, piscando até minha visão se ajustar e o brilho diminuir, revelando um teto.
Era marrom, de madeira e polido, carregando um brilho que parecia emanar do sol.
E DEFINITIVAMENTE não era o meu.
Onde eu estava? Como...
Meu próprio raciocínio foi interrompido quando as lembranças me atingiram de uma vez. Os tiros, a fuga e o disparo que me atingira.
E então... ELA. A última coisa que eu tinha visto antes de perder a consciência.
Alarmes soaram em minha mente, e rapidamente tentei me sentar, apenas para uma dor surda pulsar pelo meu braço esquerdo. Gemi de dor e olhei para o lado, encontrando meu braço esquerdo coberto por bandagens.
Uma mancha de sangue havia tingido a gaze branca, sem dúvida onde estava o ferimento principal, mas o resto estava incrivelmente limpo. Eu não estava sangrando até a morte.
Era ela, percebi. Ela havia cuidado de mim.
Talvez meus sentidos estivessem completamente fodidos naquele momento. O som de passos seguido por um palavrão alto mal chegou à minha mente antes que eu fosse repentinamente empurrado de volta para a cama.
— Porra, deite. Você já me deu mais de um ataque cardíaco, o mínimo que pode fazer é ficar quieto.
Congelei ao ver a mulher acima de mim enquanto ela ajeitava os lençóis.
Ela não estava olhando diretamente para mim, mas sua expressão estava em algum lugar entre irritação e exaustão.
E, por um momento completamente inadequado, eu só conseguia encará-la.
A última vez que a vira tinha sido pouco antes de eu desmaiar. Mal conseguira distinguir seu rosto sob a luz fraca e em meio aos meus próprios problemas. Agora, eu via tudo.
Pele escura que parecia brilhar em dourado sob a iluminação. Óculos emolduravam seu rosto, junto dos cachos soltos que escapavam de seu coque.
Ela ergueu o olhar, estreitando os olhos por baixo dos óculos, antes de recuar e se acomodar em uma cadeira ao lado da cama que eu não havia notado.
— Olá para você, estranho. — Ela disse. — Que bom ver você acordado. Agora, tenha cuidado antes de falar ou se mexer. Já tive emoção demais por uma noite graças a você.
Engoli em seco, desviando o olhar. Uma mulher bonita, admito, não era algo estranho para mim. Eu já havia visto muitas.
— Você salvou minha vida. — As palavras arranharam minha garganta.
— Bom, eu não podia deixar você morrer dentro do meu prédio. — Ela bufou. Franzi a testa, mas não pensei muito nisso. Dessa vez, olhei ao redor de verdade, processando o ambiente.
Estávamos em um quarto, o dela, ao que parecia. Era espaçoso o suficiente, com luz preenchendo todo o ambiente e móveis que realmente pareciam ter vida.
Aquele era, sem dúvida, o lar dela. Mas, na última vez em que estive em sua loja, o que significava que...
Meu maxilar se contraiu e imediatamente tentei me sentar.
— Cuidado. — Ela avisou, mas não fez menção de se mover. Fui mais cuidadoso dessa vez, apoiando-me na mão ilesa antes de me virar para ela.
— Como eu cheguei aqui? — perguntei, sentindo o estômago se contrair.
— O quê? — Ela perguntou, incrédula, mas eu não conseguia pensar.
— Como você me trouxe para cá? Quem viu você me trazer? Alguém seguiu você? — As perguntas saíram de forma ríspida.
— Eu... Do que você está falando? — Sua expressão mudou levemente para algo semelhante à irritação.
— Responda. — Exigi. — Se alguém viu você, um proprietário, um transeunte qualquer ou alguém que ajudou, isso deixa um rastro. Já é ruim o bastante que você tenha visto, e ter que lidar com você...
— Lidar com... você está ME AMEAÇANDO? — ela explodiu, fazendo-me ficar imóvel.
— Seu filho da puta. Depois de invadir minha loja, sangrar e me fazer encobrir você e manter você vivo, É VOCÊ quem está me interrogando? Você é um maldito caso à parte. Se estava tão empenhado em não ser pego, talvez pudesse ter pensado em não entrar no MEU lugar e não ficar SANGRANDO até morrer.
O impacto de suas palavras me deixou completamente sem fala. Ela soltou o ar, balançando a cabeça enquanto se levantava da cadeira antes de apontar para mim.
— Deixe-me explicar para você entender. A livraria que você arrombou — nem tente discutir isso. Eu SEI COM CERTEZA que a tranquei — e na qual você invadiu é MINHA, e fica do outro lado deste cômodo, que EU TAMBÉM possuo, porque sou dona do prédio INTEIRO. — Ela bufou indignada. — Eu não precisei ‘levar’ você a lugar nenhum e ninguém viu você, seu paranoico do caralho. Mas precisei carregar esse seu traseiro pesado escada acima SOZINHA. Precisei passar a noite tirando a bala de você SOZINHA e tratando seu ferimento com a ajuda de cada maldito vídeo que consegui encontrar na internet sem ser identificada como uma assassina em série, e quase perdi minhas articulações e minha sanidade fazendo tudo isso, então, de nada, seu idiota.
As palavras dela me atingiram como um tapa no rosto. Encarando sua expressão indignada, apenas um pensamento se consolidou.
Eu tinha cometido um erro. Um erro grave.
Baixei o olhar, sentindo-me completamente repreendido de uma maneira que jamais esperava sentir vindo de uma mulher com metade do meu tamanho.
Se havia alguma coisa que eu aprendera com a experiência, era saber quando admitir meus erros.
— Peço sinceras desculpas pelo meu erro de julgamento. — Cedi. — Eu estava errado no que disse e sou grato por você ter salvado minha vida. Eu não teria sobrevivido sem você.
Era estranho pedir desculpas a uma desconhecida, muito menos a uma mulher que eu acabara de conhecer. Talvez fosse o maior pedido de desculpas que já havia feito a uma estranha.
Ainda assim, ela não se moveu, cravando os olhos em mim como adagas, como se estivesse esperando alguma coisa.
Muito bem, eu poderia ao menos oferecer um pouco de honestidade.
— Permita-me me apresentar adequadamente. — Estendi minha mão direita para ela, ignorando a dor provocada pela tensão daquela postura desajeitada. — Sou Roman Ricci. Obrigado por salvar minha vida.
Ela olhou para minha mão por alguns segundos, e eu quase esperava que ela a afastasse com um tapa ou continuasse me encarando até surgirem buracos nela. Não fez nenhuma das duas coisas.
Não a pegou, apenas sinalizou para que eu a abaixasse.
— Eva Johnson. — Ela respondeu. — Não vou dizer que é um prazer, porque não é. Mas é... bom saber que você está bem.
Seus olhos se desviaram do meu rosto para baixo antes de ela subitamente desviar o olhar. Franzi a testa, confuso, e olhei para baixo.
Ah.
Minha camisa tinha sumido e, sob o edredom, eu sabia que não estava usando nenhuma calça. Tirando a roupa íntima, eu estava completamente nu.
Antes que eu percebesse, ela havia se afastado e ido até a porta, onde uma grande sacola de compras estava.
— Suas roupas não tinham salvação com todo aquele sangue e... outras coisas — ela gesticulou de forma exagerada enquanto tirava algumas roupas e as jogava sobre a cadeira ao lado. — Vou queimá-las assim que puder. Peguei algumas roupas em um brechó que devem servir em você. Mas nem pense em usá-las ainda. Você deveria descansar.
Quando se virou novamente, seu olhar ricocheteou de um canto ao outro, tentando não olhar para mim. Um toque de diversão me percorreu quando ela finalmente focou o rosto em mim. Se não fosse pela pele mais escura, eu sabia que ela estaria corada por inteiro. Eu praticamente conseguia ver.
Voltei a mim. Por que diabos eu estaria pensando na pele dela?
— Obrigado. — Eu disse, afastando aqueles pensamentos traiçoeiros.
Ela assentiu, quando, de repente, seu rosto assumiu uma expressão mais séria.
— Você tem para onde ir? — perguntou. A confusão tomou conta de mim, mas assenti.
— Ótimo. — Ela sorriu. — Então, assim que estiver bem o suficiente, entre em contato com quem quer que seja para poder ir embora.
Pisquei, surpreso.
— Não me entenda mal. Não é todo dia que se vê um homem aleatório sem camisa no próprio quarto. Eu gostei da vista. — Ela se apressou em dizer e deu de ombros. — Mas você é CLARAMENTE perigoso, e seja lá no que estiver envolvido, eu não quero fazer parte. Já é ruim o bastante ter você na minha casa sem eu saber quem você é ou com que tipo de coisa ilícita está envolvido, mas isso é o limite da minha bondade. Já tenho problemas suficientes para ainda ter que me preocupar com um criminoso corrupto.
Criminoso corrupto. Essa era uma que eu nunca tinha ouvido.
— Entendo. — Eu disse. — Vou sair do seu caminho assim que puder, Srta. Johnson.
— Então não teremos problemas. — Ela assentiu de forma decisiva. — Nesse caso, vou deixar você sozinho para se recuperar. Seu telefone está ao seu lado, totalmente carregado. Você deve ter recebido algumas ligações, mas não verifiquei. Quanto à sua a- a arma, vou dizer onde está BEM ANTES de você sair.
Havia um brilho cauteloso em seus olhos que me dizia tudo o que eu precisava saber. É claro que ela não entregaria uma arma perigosa a um estranho.
Esperta, cautelosa e decidida. Isso era... admirável, e uma característica de bom senso que eu via em pouquíssimas pessoas.
Ela parecia esperar que eu me ofendesse, mas estava longe disso.
Assenti para ela, e isso foi tudo de que precisou. Num instante, ela se virou, levantou a sacola e saiu do quarto. A porta bateu.
Respirando fundo, deixei aquela sensação tomar conta de mim.
Meu dia tinha sido muito mais agitado do que eu jamais poderia imaginar.
RomanA primeira coisa que surgiu enquanto eu recuperava a consciência foi a dor. Uma dor surda que parecia pesar sobre todo o meu corpo.Eu não era estranho àquele tipo de dor. Ela havia passado por cada missão. Eu mesmo havia treinado e me preparado para suportá-la.Eu não conseguia, por nada neste mundo, lembrar por que estava sentindo aquilo AGORA.Meus olhos se abriram lentamente, encontrando uma visão dolorosamente ofuscante. Insisti, piscando até minha visão se ajustar e o brilho diminuir, revelando um teto.Era marrom, de madeira e polido, carregando um brilho que parecia emanar do sol.E DEFINITIVAMENTE não era o meu.Onde eu estava? Como...Meu próprio raciocínio foi interrompido quando as lembranças me atingiram de uma vez. Os tiros, a fuga e o disparo que me atingira.E então... ELA. A última coisa que eu tinha visto antes de perder a consciência.Alarmes soaram em minha mente, e rapidamente tentei me sentar, apenas para uma dor surda pulsar pelo meu braço esquerdo. Gemi d
RomanEntão meu pressentimento estava certo.Porra.Mais tiros começaram, claramente direcionados ao nosso carro. Um deles atingiu o vidro da janela que eu havia fechado segundos antes. Nada se quebrou, mas eu já tinha me abaixado dentro do carro junto com Reggio e Dominic.— Ande. — Ordenei. O motor roncou, mas um som áspero e metálico nos recebeu.— Nossos pneus. Eles atiraram neles. — Reggio cuspiu, soltando alguns palavrões no mesmo instante em que o para-brisa se rachou.É claro que sim. Meu maxilar se contraiu.Quem era o responsável por aquilo era óbvio. Eu já havia previsto um ataque, mas ele veio mais cedo do que o esperado.Marco havia planejado tudo também. Eles deviam estar nos seguindo até aqui por uma rota diferente — não havia carros nas proximidades — e então haviam se posicionado aqui. Sob a cobertura da escuridão, com os postes iluminando a nós, éramos carne na tábua de cortar.Não havia outra saída senão sair dali.Era isso que eu ganhava por me permitir um momento
Roman— Então, o que você está me dizendo — comecei em um tom controlado — é que, para conseguir o selo da Família Ricci e assumir o controle completo da Família, eu preciso me casar com alguém por um período mínimo de seis meses?O atual advogado do meu falecido pai, Jonathan Bianchi, segurava a pasta como se sua vida dependesse disso.— Eu... sim. — Ele engoliu em seco, com as mãos se fechando uma sobre a outra. — É i-isso que o contrato diz, Sr. Ricci... senhor.Meus olhos se estreitaram.— E você também está dizendo que não há alternativa para esses termos? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. — Nenhuma brecha legal ou tecnicalidade que possamos usar para contornar isso? Nenhuma falsificação também?Inclinei-me para a frente enquanto falava, e o homem se recostou, os olhos se arregalando.— N-Nenhuma, senhor. — Ele disse. — Seu pai foi muito claro quanto aos termos. Ele até incluiu uma transcrição gravada da conversa dele com meu pai para deixar isso claro. Precisa ser um casame







