로그인As pessoas costumavam dizer que ninguém era capaz de sentir de verdade a dor do outro. Mas como isso podia ser verdade? Naquele instante, Lorena sabia exatamente o que Isaac estava sentindo.Sete anos antes, ela também havia estado naquela situação. Sempre repetia:— Não dói, está tudo bem, eu vou melhorar, não se preocupe.Ela dizia aquilo como se pudesse, assim, tranquilizar quem estava ao seu lado. Mas como ela não sentiria dor? Como não teria medo?Agora, Isaac olhava para Rita e Lorena quase como se implorasse pela compreensão delas.— Vovó, Lorena, eu estou pedindo a vocês. Por favor, não venham mais me ver, está bem? Eu não quero que vocês me vejam assim, tão fraco, tão acabado. Quando eu melhorar, eu prometo que vou aparecer bonito diante de vocês. Está bem?Rita suspirou e assentiu.— Está bem.— Lorena? — Ele olhou para ela de novo.Lorena respirou fundo, tentando conter o ardor no nariz, e assentiu.— Isaac, então me prometa uma coisa. — Disse Rita, séria. — Quando você rece
Lorena passou a noite entre cochilos e despertares. Enquanto dormia, sonhava que estava de volta ao ensino médio; sempre que abria os olhos, deparava-se com a realidade. Perto do amanhecer, porém, ela finalmente conseguiu dormir profundamente. Quando acordou de novo, já era quase meio-dia.Lorena desceu, e Rita já tinha deixado o almoço pronto para levar ao hospital. Além dos pratos de que Isaac gostava, Rita também preparara algumas comidas típicas da Inglaterra, com medo de que Anna não se acostumasse à culinária brasileira.— Vovó, por que você não me chamou? — Perguntou Lorena.Pelo visto, se Lorena não tivesse descido, Rita teria ido sozinha ao hospital.Por um instante, o rosto de Rita revelou uma pontinha de preocupação, mas ela logo disfarçou.— Não havia necessidade. Eu vou porque quero vê-lo.— Espere um pouco por mim. Eu também vou.Lorena conseguia imaginar o que havia levado a avó a tomar aquela decisão. Anos atrás, Isaac fora salvo por Lorena. Agora, ele arriscara a própr
Lorena segurava o celular e percorria os vídeos na internet com os dedos, sem prestar atenção de verdade em nenhum deles.Ela não sabia pelo que estava esperando.No fim, nada aconteceu. Ainda com o celular na mão, Lorena foi adormecendo aos poucos.Então ela começou a sonhar.Sonhou com uma noite em que a cidade inteira estava enfeitada para o Ano-Novo. Era a mesma época do ano, a mesma noite de celebração. Ela havia saído da casa da avó levando metade de um frango assado, decidida a procurar Isaac.Aquele era o primeiro Ano-Novo de Isaac sem a companhia da avó. Ela havia morrido pouco tempo antes.Naqueles dias, o frio castigava sem dar trégua. Depois de passar muito tempo do lado de fora, Lorena sentia como se estivesse dentro de um congelador. Aquele frio lhe lembrava o olhar que Isaac vinha exibindo ultimamente.Isaac morava com a avó em uma casa grande. Aquela era a única coisa que o pai lhe deixara: um lugar para onde voltar.Lorena já tinha ido lá uma vez e guardara o endereço
Os mais velhos sempre gostavam de ver os filhos e netos bem alimentados, fortes e até um pouco rechonchudos, de tanto que eram bem cuidados.Isaac roçou o rosto na palma da mão da avó. Seus olhos se encheram ainda mais de lágrimas, e seus lábios pálidos tremeram de leve.— Está bem...— Então, comporte-se. — Recomendou Rita, com firmeza. — Você precisa obedecer aos médicos, à Anna e a mim também!— Sim. — Respondeu Isaac, assentindo.Só então Rita e Lorena foram embora.Lorena não sabia se era impressão sua, mas havia algo diferente em Rita e Anna naquele momento.Rita tinha um ar decidido que chamou sua atenção. E, quando passou por Anna pouco antes, Lorena teve a impressão de ver sinais de que ela havia chorado.Ao sair do quarto, Lorena olhou para trás, mas só conseguiu ver Anna de costas. Ela estava parada diante da cama de Isaac, impedindo Lorena de vê-lo.— Vovó — Perguntou Lorena, já no corredor do hospital. — Você conversou com Anna sobre alguma coisa?Rita assentiu.— Converse
— Você ficou com raiva?De repente, Isaac segurou a mão de Lorena.Ela baixou os olhos e viu o homem deitado na cama. Isaac estava abatido, quase sem vida, com os lábios arroxeados e os olhos fundos fixos nela. A mão que saía debaixo do cobertor era magra a ponto de parecer só osso. Mesmo sem forças, ele ainda tentava manter os dedos dela entre os seus.Lorena soltou a mão dele e tornou a acomodá-la sob o cobertor. A leveza que Isaac tinha tentado criar desmoronou naquele instante.— Como você ficou tão magro assim? — Perguntou Lorena.Ela sentiu o nariz arder. As emoções que vinha reprimindo ameaçaram transbordar, e ela precisou se esforçar para conter as lágrimas.— Por que você está chorando? — Perguntou ele, com a voz rouca, tentando manter o sorriso no rosto. — Isso tudo foi culpa da comida horrível da Inglaterra.— Então você deveria ter se cuidado... — Lorena quase disse que ele nem deveria ter ido para a Europa, que teria sido melhor ficar no país deles. Mas, ao lembrar que Ann
Lorena abriu a caixa do presente e encontrou, dentro dela, um envelope elegante.Isaac ainda perguntou:— Dentro desse envelope tem libras... ou reais?Ele devia estar sofrendo muito. Cada palavra parecia exigir um esforço enorme, mas, ainda assim, ele insistia em falar.Lorena não conseguiu evitar e lançou um olhar duro para ele.— Se você não está se sentindo bem, não fale.Ele sorriu. Talvez tivesse forçado algum músculo, pois sentiu dor logo em seguida e seu sorriso se desfez numa careta.— Como eu vou ficar calado? Eu quero conversar.Lorena abriu o envelope. Dentro havia um maço de notas novinhas de cem reais. Ela mostrou a ele.— São reais. Todas as notas são novinhas. Ficou feliz?— Fiquei.Isaac olhou para o dinheiro no envelope e suspirou, emocionado.— A vovó continua igualzinha. Ela sempre prepara dinheiro novinho com antecedência para nós. Ela sempre se preocupa que a gente fique sem dinheiro para gastar.Os mais velhos eram assim: economizavam o máximo que podiam para dep
Aurora, sempre atenta ao clima, entrou na conversa na hora certa:— Isaac, você não fica chateado só porque o pessoal falou mal da Lorena. Eles realmente estão pensando no seu bem. Pensa só: a nossa amizade já dura tantos anos… mesmo que alguma coisa que eles falaram tenha passado do ponto, você ouv
Mas a atuação exagerada de Breno fazia todo mundo dentro da sala cair na gargalhada. Aurora, sentada ao lado de Isaac, ria tanto que ela se jogava no ombro dele.E Isaac continuava sem dizer uma palavra.Breno virou-se ainda rindo:— Isaac, é assim que ela…Antes que ele terminasse a frase, ele viu
Isaac tinha voltado a beber. Ele tinha quebrado a própria regra. Pelo tom da voz, Lorena percebeu que ele estava até um pouco bêbado. Mas será que Isaac realmente seria capaz de gritar daquele jeito em público?Na lembrança de Lorena, Isaac, no ensino médio, tinha sido o típico gênio frio: o melhor
O som contínuo da água ecoava no banheiro. Isaac estava tomando banho. Eram três horas da manhã. Ele tinha acabado de chegar em casa.Lorena ficou parada na porta do banheiro, porque ela queria conversar com ele sobre uma coisa. Ela estava tensa e não sabia se ele ia concordar com o que ela estava p







