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4: Lá vem a noiva

last update Petsa ng paglalathala: 2025-12-03 08:46:40

Renato Salles

Os minutos que se seguiram àquela ligação da Soraya foram, sem dúvida, os mais longos da minha vida. Tudo o que eu queria era desaparecer dali. Sair daquela igreja, sumir do mapa. Mas só de imaginar o que diriam de mim… o noivo abandonado no altar… a piada pronta para colunas sociais, rodas de negócios e até memes na internet… meu sangue fervia. 

Meu orgulho não permitia.

Aqueles desgraçados da família Lemos iam ter que dar um jeito. Não me importava como. Ou resolviam essa palhaçada, ou eu faria questão de arrastar o nome deles pela lama até que nenhum deles pudesse andar de cabeça erguida de novo.

Com a respiração descompassada, fui até o banheiro que, provavelmente, pertencia ao padre da paróquia. Lavei o rosto na pia. A água fria mal aliviava o calor que subia pela minha pele. Meus olhos estavam vermelhos. A testa, coberta de suor.

Alessandro.

Só de pensar naquele canalha com a Raquel, meu estômago revirava. A raiva me consumia.

Como fui tão estúpido? Como não percebi que havia algo estranho entre eles? A forma como se olhavam… as conversas cochichadas… o tempo demais juntos. Estava tudo na minha cara, mas eu escolhi não ver.

Lembrei-me do sorriso da Raquel. Da maneira como me fazia acreditar que era meu. E, de repente, meu peito apertou como se algo tivesse sido me arrancado à força.

Como ela pôde fazer isso comigo? Logo comigo, que daria até a vida por ela?

— Está tudo bem, filho? — ouvi uma voz masculina atrás de mim. Virei-me e dei de cara com o padre que celebraria o casamento.

— Está, sim, padre. Só um pouco nervoso — respondi rápido, mentindo sem hesitar. Nunca me rebaixaria ao ponto de expor minhas desgraças para alguém.

Se tem uma coisa que sempre me manteve firme nesta vida, foi meu orgulho. E era ele que ainda me mantinha ali, de pé, vestindo um terno, esperando por uma noiva que não viria.

— É normal os noivos ficarem assim — o padre continuou com um sorriso sereno. — Mas lembre-se de uma coisa, meu filho: o casamento é um dos passos mais sagrados e lindos que um homem pode dar. É a união que Deus abençoa.

Fechei os olhos por um instante. Sagrado, ele disse. A palavra pesa nos meus ombros como uma piada cruel. Tudo isso virou uma farsa.

E, ainda assim, eu estava aqui.

— O senhor tem razão — respondi ao padre, forçando um tom respeitoso, mas com uma vontade imensa de mandá-lo à merda.

Se o casamento era tão maravilhoso assim, por que ele escolheu o celibato? Pensei, com sarcasmo. Mas engoli seco. Já tinha problemas demais para arrumar mais um.

— A noiva já deve estar chegando, não é mesmo? — perguntou ele, olhando para o relógio pendurado na parede.

— Espero que sim — respondi, desejando com todas as forças que aquilo fosse verdade.

Então, o meu celular vibrou no meio da conversa. Uma notificação de Soraya. Abri a mensagem imediatamente.

“Arranjei uma noiva.”

Fiquei paralisado. O que ela queria dizer com isso? Digitei sem pensar:

Quem é?

A resposta veio em segundos:

“Sara. Irmã da Raquel.”

Sara? O nome pareceu vago, sem nenhum rosto que me vinha à mente. Desde o início do meu namoro com Raquel, falávamos pouco sobre família. Era sempre tudo sobre nós dois. Quando fui à casa dela para pedi-la em noivado, essa tal irmã sequer estava presente. Nem me lembro de Soraya ter mencionado outra filha naquela casa.

Que tipo de jogo sujo era aquele? Estava curioso, mas não me dei o trabalho de aprofundar.

É bom que ela chegue logo… ou não respondo por mim.

“Estamos à porta”, Soraya respondeu.

— A noiva chegou. — Avisei ao padre.

— Que bom. Vou para o altar conferir se está tudo no lugar. Te espero lá, meu filho.

— Escuta, padre — disse, chamando a sua atenção.

— Sim?

— Na hora dos votos, pode apenas nos chamar pelo sobrenome?

— Posso, mas… — ele ponderou. — Por quê?

— É que essa será a última vez que a minha noiva será chamada pelo nome de solteira, então a chame apenas de senhorita Lemos.

Mesmo achando aquele pedido meio absurdo, o padre aceitou, afinal, quem seria o louco de dizer não a um homem como eu?

— Tudo bem, meu filho. Te espero no altar.

— Claro. Estou indo — respondi com um sorriso forçado.

Senti um alívio estranho percorrer meu corpo. Eu não estava nem aí para quem era a tal da Sara. Se ela topou esse papel, azar o dela. Tudo o que eu queria era encerrar aquela cerimônia sem ser motivo de chacota. Eu só precisava me casar e depois dar um pé na bunda da noiva.

Guardei o celular no bolso e saí do cômodo. Assim que apareci no altar, os convidados silenciaram. A marcha nupcial começou a tocar, e as portas da igreja se abriram.

Lá vinha meu sogro… caminhando com uma noiva ao lado. O véu cobria completamente o rosto dela. De longe, percebi que ela tinha quase a mesma altura da Raquel, mas era bem mais magra. Algo na sua postura denunciava hesitação, mas a mão firme do meu sogro a conduzia com precisão.

Quando chegaram ao altar, ele me entregou a mão dela. Eu a segurei, firme. Meu sangue ainda estava fervendo. Se fosse por mim, eu mesmo encerraria essa farsa ali, diria “não” e jogaria tudo pelos ares. Mas não. Eu tinha um nome a zelar. Nenhum escândalo valia o desgaste público.

Puxei-a com firmeza para perto de mim.

O padre começou a cerimônia. Palavras iam e vinham, e tudo soava como um zumbido longe. Até que ele me olhou.

— Senhor Salles, aceita essa mulher como sua legítima esposa, para amá-la e respeitá-la, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, na riqueza ou na pobreza, até que a morte os separe?

Engoli em seco.

— Sim — disse, com a voz firme, mesmo que o mundo dentro de mim estivesse em ruínas.

O padre se voltou para ela.

— E você, senhorita Lemos? Aceita este homem como seu legítimo esposo? Para amá-lo e respeitá-lo, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, na riqueza ou na pobreza, até que a morte os separe?

Houve um silêncio.

Ela hesitou. Não respondeu. Senti sua mão tremer levemente sobre a minha.

Então a apertei com força. Deixando claro que não estava ali para brincadeira.

Ela respirou fundo. E, com a voz abafada que mal ultrapassou o véu, respondeu:

— Sim… eu aceito.

O padre sorriu. Deu as bênçãos. E então soltou a frase que já me enjoava só de ouvir:

— Pode beijar a noiva.

Com um misto de raiva, curiosidade e formalidade, soltei a mão dela e segurei o véu. Erguer aquilo se tornou um momento que parecia durar horas.

E então…

Revelei seu rosto.

Meu coração disparou.

Estava diante da mulher mais feia que já vi em toda a minha vida.

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Mga Comments (2)
goodnovel comment avatar
Ivete Cristina de Oliveira
ou só mal cuidada?
goodnovel comment avatar
Ivete Cristina de Oliveira
coitada da Sara, ela é tão feia assim?
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