Se connecterDe manhã, nevava de novo em Rivara.Nina ficou de pé diante da janela de vidro do hotel, olhando os garis lá embaixo empurrarem a neve acumulada para as laterais da calçada, até aparecer o asfalto cinza‑azulado da rua.O celular vibrou duas vezes em cima da mesa de cabeceira.Ela se virou, caminhou até lá e pegou o aparelho. Era uma mensagem de Cauã.[Mana, o contrato já foi assinado?]Ela digitou a resposta:[Ainda não. Eu vou aí hoje de manhã.]A resposta dele chegou na mesma hora:[Valeu, mana.]Nina guardou o celular no bolso e entrou no banheiro para se arrumar.Às nove e meia da manhã, Nina chegou pontualmente à sede do Grupo Duarte.Virgínia vinha logo atrás dela, com um calhamaço de documentos do governo nas mãos, falando em voz baixa sobre alguns detalhes.Nina ouvia enquanto atravessava o saguão do térreo em direção aos elevadores.Quando a porta do elevador se abriu, havia ali dentro alguns funcionários do Grupo Duarte. Quando eles viram Nina, todos recuaram instintivamente,
Dois dias depois, em Rivara.Assim que Nina e Virgínia saíram pelo portão de desembarque, uma mulher de terninho social se aproximou, calorosa e ao mesmo tempo muito respeitosa.— Dona Nina, eu sou a secretária do Sr. Douglas. Ele teve uma reunião hoje de manhã da qual ele não conseguiu sair, então ele pediu para eu vir buscar a senhora. Ele está esperando a senhora na empresa.— Obrigada.Em seguida, Nina virou a cabeça para Virgínia:— Você vai lá cuidar do que eu te pedi primeiro.Quando o carro entrou no estacionamento subterrâneo da sede do Grupo Duarte, já estava quase na hora do almoço.Nina acompanhou a secretária até o andar da presidência. Quando a porta do elevador se abriu, Douglas estava justamente saindo da sala de reuniões.Ele carregava uma pasta com um contrato recém‑assinado. Quando ele a viu, ele deu alguns passos largos em direção a ela.— Nina. — Ele pegou naturalmente a pasta que ela trazia na mão, com um sorriso surgindo no canto dos lábios. — Você finalmente che
Cauã e Lilian saíram um atrás do outro, guiados apenas pela pouca luz que escapava de dentro da casa.De repente, Lilian parou e chamou por ele:— Cauã.Ele virou o rosto para olhar para ela.— Hum?— Por tudo o que aconteceu hoje... Obrigada.— Você não precisa me agradecer.— Eu não estou te agradecendo só por educação. — Lilian falou com expressão séria. — Eu estou falando de verdade.O vento gelado do fim do inverno assobiava pelo beco, deixando o ar ainda mais vazio e cortante.— Vamos. A gente conversa no carro. — Cauã ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer.Eles saíram do beco e entraram no carro preto estacionado ali em frente.Lilian conferiu a hora. Ela sabia muito bem que ele provavelmente tinha vindo direto do aeroporto, e uma amargura difícil de definir se espalhou em silêncio pelo peito dela.Cauã ligou o ar‑condicionado no quente. Só quando a temperatura dentro do carro subiu um pouco, ele virou o rosto para ela.— Eu vou colocar umas pessoas para ficarem d
Cauã olhou para o próprio celular.— O chefe de vocês se chama Ronan? Ele é careca, saiu da cadeia há dois anos, tem uma dúzia de capangas e vive de agiotagem e cobrança.Ele falou como se estivesse falando do tempo, mas o rosto do homem da jaqueta de couro foi mudando pouco a pouco.— Como é que você sabe…— Eu sei bem mais do que isso. — Cauã ergueu os olhos para encará‑lo. — O seu chefe levou um tombo feio no mês passado e já avisou que não está mais pegando serviço em Cidade A. E você vem, justamente agora, bater na porta errada.O homem da jaqueta engoliu em seco. Ele ficou encarando Cauã por alguns segundos antes de arriscar:— Você… É da família Frota?Cauã não confirmou nem negou. Ele só balançou o celular na mão, com a voz neutra:— Quer que eu ligue agora para o seu chefe? Aí ele vem pessoalmente buscar vocês.O homem ficou calado por alguns segundos, enquanto uma camada fina de suor aparecia na testa.Ele só conseguia sobreviver naquele meio porque tinha faro para perigo. O
Yago, ao ouvir aquilo, ficou com os olhos injetados de sangue. Ele avançou e apontou o dedo para o rosto de Lilian, rugindo:— Que porra é essa que você está falando?! Ele é o seu irmão! Seu irmão de sangue! Você está vendo que vão arrancar a mão dele e mesmo assim você não quer dar dinheiro? Você ainda tem coração?— Se eu tenho coração ou não, você já joga isso na minha cara há mais de vinte anos. — Lilian ergueu os olhos para Yago. — Se você realmente se importasse com ele, por que, quando ele começou a se afundar em dívida, você não fez nada para segurar ele?Yago ficou sem reação por alguns segundos com o contra‑ataque. Em seguida, ele elevou ainda mais o tom:— Ele é o seu irmão!— Então a dívida dele tem que cair nas minhas costas? — Lilian não se alterou; ela apenas devolveu a pergunta em um tom calmo. — Você, de mão na consciência, me diz: desde que ele era pequeno, você já ensinou para ele o que é responsabilidade?Aquela frase acertou Yago em cheio. O rosto dele ficou vermel
Cauã tinha ficado dois dias em Rivara. Ele e Douglas já tinham deixado praticamente todos os detalhes da parceria fechados, restando apenas uma pequena parte de questões técnicas, que dependeria de o time de engenharia montar um plano específico para, depois, eles voltarem a alinhar.Naquela noite, Douglas convidou Cauã para jantar.Os dois comiam e conversavam. Douglas continuava sendo um homem de poucas palavras, mas, de vez em quando, ele soltava uma ou outra piada leve, sem muito peso, bem diferente da rigidez do primeiro encontro.No meio do jantar, o celular de Cauã tocou. Ele olhou de relance para o visor e, na mesma hora, se levantou e se afastou para atender.Ninguém sabia o que o outro lado tinha dito, mas, em segundos, o rosto de Cauã fechou completamente.— O irmão dela? O que ele aprontou agora? — Ele perguntou, com a voz já gelada.O funcionário respondeu do outro lado da linha, claramente tenso:— Ele apanhou de novo. Desta vez os cobradores foram direto atrás da Lilian.