เข้าสู่ระบบErick
Renata foi embora às onze e quarenta e três da manhã. Eu sabia o horário exato porque, depois que as portas do elevador se fecharam levando-a para longe de mim, olhei para o relógio como se aquilo pudesse me dar algum tipo de controle. Como se números ainda servissem para organizar alguma coisa dentro da minha cabeça. Não serviram. A pasta rasgada continuava espalhada sobre minha mesa. Pedaços de cláusulas, valores e confidencialidade pareciam restos de uma guerra pequena, mas brutal. No centro de tudo, havia uma frase que ela não disse, mas deixou cravada no ar: Você me rejeitou. Ajeitei o paletó, respirei fundo e voltei para a cadeira. Eu tinha feito o certo. Era isso que eu precisava repetir. Fiz o certo. Renata havia surgido com uma gravidez inesperada, em um momento impossível. O conselho estava de olhos abertos sobre mim. Meus concorrentes esperavam qualquer rachadura para me atacar. A imprensa financeira adoraria transformar minha vida íntima em manchete suja. Eu não podia permitir. Não podia deixar uma noite de fraqueza destruir anos de construção. Abri o notebook e tentei ler o relatório de aquisição da empresa de logística. As letras se misturaram. Números, gráficos, projeções. Tudo parecia absurdamente irrelevante diante da lembrança dela no corredor, segurando a bolsa contra o peito como se carregasse o último pedaço de dignidade. A porta se abriu sem aviso. Minha mãe entrou. Helena Monteiro nunca batia. Para ela, portas eram apenas detalhes arquitetônicos. — Você fez o que precisava ser feito — disse, antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa. Ergui os olhos. — E desde quando isso deveria me consolar? Ela caminhou até a mesa, impecável em seu vestido claro, o colar de pérolas no pescoço e aquela expressão fria de quem aprendeu a vencer sem se sujar. — Consolação é para pessoas que podem se dar ao luxo de sentir demais, Erick. Você não pode. Fechei o notebook com força. — Ela está grávida. Minha mãe não piscou. — Ela diz que está grávida. A raiva subiu quente. — Não trate como se fosse uma mentira comprovada. — E você não trate como se fosse uma verdade absoluta. Mulheres inteligentes sabem onde mirar. Levantei devagar. — Cuidado. Helena arqueou uma sobrancelha. — Está me ameaçando por causa da sua secretária? A palavra me atingiu errado. Secretária. Como se Renata fosse só isso. Como se eu não lembrasse do gosto da pele dela, da forma como me encarou mesmo tremendo, da coragem que teve ao entrar na minha sala com um medo que eu mesmo piorei. — Ela não é esse tipo de mulher — falei, baixo. Minha mãe me observou por alguns segundos, e havia algo quase satisfeito em seus olhos. — Então você já está envolvido demais. O silêncio caiu pesado. Ela contornou a mesa e parou diante de mim. — Escute bem. Você é Erick Monteiro. Carrega um nome que muita gente quer derrubar. Hoje você cortou um problema antes que ele virasse escândalo. Amanhã, quando tudo esfriar, vai agradecer por não ter sido fraco. Fraco. A palavra sempre funcionava comigo. Meu pai a usava quando eu era criança. Minha mãe, quando eu hesitava. O conselho, quando queria me dobrar. Fraco era o insulto que moldava homens como eu até eles esquecerem como se pedia desculpa. — Ela saiu chorando — eu disse, sem saber por que aquilo escapou. Helena suspirou. — Mulheres choram. Empresas quebram. Escolha qual desastre você prefere. Aquilo deveria ter encerrado o assunto. Mas não encerrou. Porque, quando ela saiu, a sala ficou vazia demais. E então eu percebi o primeiro detalhe: a mesa de Renata estava silenciosa. Nenhum toque rápido no teclado. Nenhuma voz anunciando reuniões. Nenhum passo firme entrando na minha sala com café sem açúcar, exatamente como eu tomava, mesmo antes de eu pedir. À tarde, uma assistente temporária apareceu com minha agenda impressa de forma errada. Errou o horário da ligação com um investidor, esqueceu de anexar documentos ao e-mail e deixou café com açúcar na minha mesa. Olhei para o copo como se ele tivesse me ofendido. — Está errado — falei. A moça empalideceu. — Desculpe, senhor Monteiro. Eu posso trocar. — Não precisa. Ela saiu quase correndo. Fiquei encarando o café intocado. Renata nunca errava. Essa constatação me irritou mais do que deveria. Não era saudade, disse a mim mesmo. Era apenas hábito. Eficiência. Dependência profissional. Qualquer coisa menos a falta dela. Mas quando entrei na sala de reuniões, ainda senti o cheiro do perfume dela preso na memória do ambiente. Quando abri a gaveta, encontrei um bloco de notas com a letra dela, pequena e organizada. Quando peguei o telefone para chamá-la, meu dedo parou sobre o ramal antes que eu lembrasse: ela não estava mais ali. E talvez nunca mais voltasse. No fim do expediente, o conselho se reuniu em emergência. Homens de ternos caros e sorrisos falsos falavam sobre riscos, imagem e estabilidade. Eu respondi com precisão. Cortei objeções. Aprovei medidas. Fiz tudo que Erick Monteiro deveria fazer. Por fora, perfeito. Por dentro, uma pergunta sangrava: E se o filho for meu? A imagem veio sem permissão. Renata com a mão na barriga. Os olhos cheios de lágrimas. A voz quebrada dizendo: — Eu preciso proteger meu filho. Meu. A palavra rasgou alguma coisa. Quando voltei para minha sala, encontrei minha mãe me esperando perto da janela. — Você está pálido — ela comentou. — Estou cansado. — Não. Você está pensando nela. Não respondi. Helena se aproximou, tocando meu ombro com uma delicadeza ensaiada. — Esqueça Renata. Esqueça a gravidez até que exista prova. O que você fez hoje foi necessário. Olhei para a cidade lá embaixo. Luzes frias, prédios altos, pessoas pequenas. O mundo que eu comandava parecia intacto. Mas minha sala não. Minha empresa não. Eu não. — Necessário nem sempre é certo — falei. Minha mãe retirou a mão do meu ombro. — Esse tipo de pensamento destrói homens poderosos. Talvez. Mas, naquela noite, quando todos foram embora e o prédio ficou em silêncio, caminhei até a mesa vazia de Renata. A cadeira dela estava no lugar. A caneta favorita, esquecida ao lado do teclado. Um elástico de cabelo dentro da gaveta aberta. Peguei o elástico e fechei os dedos ao redor dele como um idiota. Eu tinha mandado Renata desaparecer. Então por que parecia que quem estava sumindo era eu?Renata Eu ainda sentia os olhares do salão quando a porta do apartamento se fechou atrás de nós.Mas, pela primeira vez, eles não pesavam.Durante todo o caminho de volta, uma frase de Erick ficou presa dentro de mim."Ela é minha família."Uma palavra tão pequena para uma coisa que me assustava tanto.Tirei os sapatos assim que entramos e soltei um gemido de alívio.— Nunca mais uso salto grávida.Erick afrouxou a gravata.— Eu avisei.— Você disse que eu ficaria linda.— E ficou.— Isso não é aviso.Ele riu.Eu também.A tensão do evento começou a desaparecer, mas outra ocupou o lugar.Porque Erick estava diferente.Ou talvez fosse eu.A maneira como ele tinha me defendido ainda mexia comigo. Não tinha falado por mim nem me tratado como alguém frágil. Apenas ficou ao meu lado.Quando Helena tentou me diminuir, ele não hesitou.E agora aquele mesmo homem estava diante de mim, mangas dobradas, gravata frouxa, cabelo levemente bagunçado.Bonito demais.Perigoso demais para minha paz.
Erick Eu odiava eventos corporativos.Durante anos, tinha aprendido a sorrir para pessoas que eu não suportava, apertar mãos de homens que venderiam a própria mãe por uma porcentagem maior e fingir interesse em conversas que terminavam sempre em dinheiro.Naquela noite, porém, eu precisava estar ali.Depois de tudo envolvendo Marcelo, os rumores e a instabilidade dentro da Monteiro Holdings, minha ausência seria interpretada como fraqueza.Mas eu não fui sozinho.Quando Renata apareceu na sala usando um vestido preto elegante que valorizava sua barriga já grande, esqueci por alguns segundos o nó da gravata que estava ajustando.Ela parou.— Que foi?— Nada.— Erick.— Estou olhando.Renata arqueou uma sobrancelha.— Percebi.Aproximei-me.— Você está linda.Ela alisou o vestido sobre a barriga.— Estou enorme.— Está grávida.— Uma grávida enorme.— Uma grávida linda.O canto da boca dela subiu.— Você anda perigoso com esses elogios.— Estou atrasado alguns meses.O sorriso desapare
Renata No meu sonho, não havia seguranças na porta.Não havia câmeras.Não havia Marcelo.Não havia Helena.Não havia medo.Só uma casa.Nem era uma casa enorme como as que combinavam com o sobrenome Monteiro. Era bonita, confortável, iluminada pelo sol que atravessava janelas abertas. Havia brinquedos espalhados pela sala e uma manta jogada sobre o sofá.E Erick estava no meio de tudo aquilo.Descalço.Com nosso bebê nos braços.— Assim? — ele perguntou, parecendo completamente perdido.Eu ri.— Segura a cabecinha.— Estou segurando.— Erick, você administra uma empresa inteira e está com medo de um bebê de quatro quilos?— Empresas não choram quando eu seguro errado.Ri mais alto.Ele me olhou indignado, enquanto nosso filho fazia um barulhinho baixo em seus braços.Então aconteceu.Erick sorriu para o bebê.Não aquele sorriso discreto que ele dava quando tentava esconder sentimentos.Era aberto.Feliz.Livre.Meu coração ficou cheio.Aproximei-me.Ele ergueu os olhos para mim.— V
Erick Existem momentos em que você percebe que o problema é maior do que imaginava.E existem momentos em que descobre que o problema carrega o seu sobrenome.Eu estava encarando a tela do computador pela terceira vez.O relatório continuava igual.O número do aparelho usado para enviar a mensagem anônima para Renata estava ali.Confirmado.Rastreado.Identificado.E cada linha que eu lia fazia meu estômago se revirar mais.— Tem certeza? — perguntei.César assentiu.— Verificamos duas vezes.Passei a mão pelo rosto.— Não pode ser coincidência.— Também não acho.Olhei novamente para o nome.Alberto Mendes.Um funcionário antigo.Muito antigo.Trabalhava para minha família desde antes de eu assumir a empresa.Antes mesmo de eu terminar a faculdade.Antes de eu entender como funcionava o mundo dos Monteiro.Meu maxilar travou.— Ele ainda trabalha para minha mãe?— Sim.O silêncio que tomou conta da sala foi pesado.Perigoso.Porque aquilo não provava que Helena tinha enviado a mensa
Renata A confiança era uma coisa estranha.Levava meses para nascer.Segundos para morrer.Eu estava aprendendo isso da pior forma.A manhã tinha começado tranquila. Erick saiu cedo para uma reunião importante, prometendo voltar para o almoço. Antes de sair, deixou um beijo na minha testa, outro na barriga e me fez prometer que tomaria as vitaminas.Uma cena simples.Bonita.Quase normal.Mas a normalidade nunca durava muito tempo na minha vida.Eu estava sentada na sala, organizando algumas roupinhas do bebê quando o celular vibrou.Sorri automaticamente, pensando que fosse Erick.Mas não era.Número desconhecido.Meu estômago apertou imediatamente.Abri a mensagem."Você realmente acredita que Erick Monteiro contou toda a verdade?"Franzi a testa.Li novamente."Pergunte a ele o que ainda está escondendo sobre Marcelo."Meu coração desacelerou.Depois disparou.A mensagem continuava."Todo mundo mente quando tem algo a perder."As mãos ficaram geladas.A conversa terminava ali.Sem
Erick Acordei antes do despertador.Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto escuro do quarto enquanto tentava entender por que aquela manhã parecia diferente.Então senti.O peso leve da cabeça de Renata apoiada em meu ombro.A mão dela repousava próxima à minha sobre o cobertor. A respiração tranquila preenchia o silêncio do quarto. E, pela primeira vez em muitos anos, eu não acordei pensando em reuniões, contratos ou problemas.Acordei pensando em ficar.Virei o rosto devagar.A luz suave do amanhecer atravessava as cortinas, desenhando sombras delicadas sobre o rosto dela.Era uma cena simples.Mas mexeu comigo de um jeito que nenhuma conquista profissional jamais conseguiu.Porque aquilo parecia lar.Uma palavra que sempre existiu para outras pessoas, nunca para mim.Cresci em uma casa enorme. Cercado de luxo. Cercado de regras.Mas nunca tive isso.Nunca tive paz.Nunca tive alguém dormindo ao meu lado por escolha.Nunca tive uma mulher confiando em mim o suficie







