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25 Perda da postura...

last update publish date: 2021-11-01 21:00:46

  – Soube que você está fazendo outra faculdade... – Anna contou-me, parecendo ter acabado de se lembrar daquela fofoca. – Pelo visto parece que realmente não quer mais trabalhar na educação infantil, não posso nem te culpar.

– Não é bem assim... – Respondi soltando um suspiro, me sentindo culpada por causar aquela impressão, mas logo percebi que apenas ficar fazendo aquele drama não me ajudaria em nada. – Sabe, eu sempre gostei de artes, então decidi seguir minha paixão que é a escrita.

Anna arregalou seus olhos escuros, parecia surpresa, mas sorriu concordando com um balançar da cabeça positivamente, então, aproximou-se, abraçando-me com força, e ao me soltar, seus olhos estavam marejando, ela estava fazendo a mesma expressão de quando contei que iria embora, a qual, na época, não consegui identificar.

– Estou tão feliz por você! Exclamou sorridente, mostrando que suas lágrimas eram de alegria. – De certa forma, a mudança te fez bem, não é?!

Fui a minha vez de ficar surpresa. Nunca imaginei que sua expressão durante a nossa despedida dois anos atrás significava isso, e quase não podia acreditar que mesmo não esboçando em palavras, ela concordava comigo, então, dessa vez, fui eu a chorar, retribuindo seu abraço.

Anna sem querer, havia sido a primeira pessoa a reconhecer minha atitude como correta, algo que nem eu conseguia reconhecer ainda, não havia crítica nenhuma em suas palavras, e senti sinceridade em suas expressões.

– O que é isso, uma novela dramática? Ela questionou rindo de repente, limpando as lágrimas que manchavam sua maquiagem, mas sorria. – Não suma dessa forma nunca mais, eu sei que você não ficará por aqui, mas por favor, mantenha contato.

– É uma promessa! Exclamei sorrindo também, e peguei meu celular para observar meu reflexo na tela, notando que o rímel havia transformando-se em lágrimas negras. – Eu ‘tô’ parecendo parte de um clipe de música gótica.

– Tome, limpe isso antes que sua irmã pense que bati em você... – Anna sugeriu pegando um lenço umedecido em sua bolsa e me entregando enquanto ria da cena que se formava em sua mente. – Já imaginou a cena?

Antes que eu pudesse responder, uma criança aproximou-se correndo, sua risada alta era muito fofa e ela estava usando um vestido cheio de detalhes que a deixava parecendo uma princesinha, seus cabelos eram envoltos em pequenos cachinhos dourados que pareciam ter sido feitos a mão por uma mãe cuidadosa.

– Quem é a amiga da mamãe? Perguntou enquanto agarrava-se a perna de Anna.

– Olá, querida! Cumprimentei, agachando-me para ficar da sua altura, lhe sorri, e abri minha bolsa, tirando algumas balas de dentro. – Meu nome é Azarya, eu estudei junto com a sua mãe, somos amigas desde pequenas, como você.

A menina ergueu a cabeça, como se perguntasse a mãe se poderia pegar os doces, e ao receber uma resposta positiva, ergueu as mãozinhas para que eu lhe entregasse os doces que havia prometido. Em seguida, correu de volta para seus amiguinhos, dividindo as guloseimas com elas.

– Na verdade, ela é filha da primeira esposa do meu marido... – Ela contou em sussurros, como se não quisesse ser ouvida pela menina. – Desculpe não ter mencionado antes, é que ela não sabe disso.

Concordei, entendendo seu argumento.

De repente, a menina voltou novamente, dessa vez, chorando com um joelho ralado, fazendo com que a mãe precisasse finalizar a nossa conversa afim de cuidar de seu machucado. E foi assim que nos despedimos, acenei para as duas, e fiquei olhando-as afastar-se enquanto tentava descobrir onde minha irmã havia se enfiado.

Olhei ao redor, notando que a igreja estava muito mais bonita do que me lembrava, e a construção havia sido ampliada, tendo mais um andar onde havia belos jardins, fiquei interessada, questionando-me o que haveria naquela parte, e caminhei naquela direção, subindo por uma longa e espaçada escadaria de pedra. Na chegada ao local, infelizmente, tive uma surpresa ruim, afinal, ao invés de encontrar estatuas antigas e jarros, deparei-me com a pessoa que tanto queria fugir, Neuza.

Quando nossos olhos se encontraram, senti uma intensa vontade de correr para longe dela, olhei ao redor notando que pouquíssimas pessoas passavam próximo e fiquei angustiada, temendo o rumo daquela situação, afinal, depois de transformar a minha vida em um inferno, e ainda me lançar aqueles olhares horrendos, não sabia o que mais ela poderia fazer.

– O que pensa que está fazendo? Ela questionou, sua voz soando muito irritada, mesmo que houvesse um sorriso em seu rosto. – Pensou que voltaria para esse lugar, batizaria a sobrinha e todo mundo esqueceria o que fez?

– Neuza, eu não vim para procurar briga com você... – Murmurei dando pequenos passos para trás, ouvindo o som dos meus sapatos de salto curto, mas não pude andar muito pois, acabei me encurralando numa parede. – Então, apenas deixe-me em paz, ok?

– Acha que só porque está morando na cidade pode falar desse jeito comigo? Neuza questionou aproximando-se, e nesse momento seu sorriso já havia sido substituído por uma expressão de puro ódio. – Uma vagabun* como você, nem devia abrir a boca para falar comigo...

Quando ouvi suas palavras grosseiras, toda a raiva e magoa reprimida transbordaram no meu âmago, então, ignorando pela primeira vez as consequências que poderia cair sobre mim, eu gritei, gritei tanto que minha garganta pareceu se rasgar, fazendo com que um gosto de sangue se instaurasse na minha boca.

– Já chega disso tudo, que inferno! As palavras fluíam pela minha boca livremente, fazendo-me sentir como se um peso estivesse sendo tirado dos meus ombros, então, aproveitando meu pequeno surto de coragem, estendi o dedo indicador na direção do seu rosto, acusando-a. – Você se enfiou nesse inferno sozinha, eu jamais teria contado qualquer coisa, sua idiota!

– Cale-se, vadi*! Ela arfou, olhando ao redor, e pela primeira vez, notei uma expressão de medo em seu rosto.

– Tão religiosa... – Resmunguei rindo baixo, percebendo enfim, o quanto aquela situação o era ridícula. – Chamando-me de todo tipo de palavra de baixo calão, sendo que entre nós duas, a mais vagabun* é você!

Fiquei enojada, e fiz uma negativa com a cabeça enquanto tentava segurar as lágrimas, pensando que jamais contaria aquele segredo tão horrendo – que descobri sem querer – porque inicialmente eu a admirava, ela era a diretora da escola em que eu trabalhava, uma mulher maduro, atraente e que na época, pensei que teria seus motivos para estar traindo o marido.

– Eu admirava você... – Murmurei fungando um pouco e mordisquei o lábio inferior, tentando parar de chorar. – E mesmo que não tivesse me ameaçado, ou sujado a minha reputação, eu não iria contar a ninguém sobre seu caso.

Ingenuamente, pensei que contado aquilo, era se sentiria culpada e enfim, me compreenderia, de modo que poderíamos esquecer toda aquela situação e talvez, até poder conviver como dois adultos normal. Não acho que poderíamos ser amigas pois, no fundo, nunca fomos, mas desejava pelo menos não precisar ficar tão ansiosa sempre que a via.

Contudo, essa conclusão inocente estava apenas em minha mente, e ela mostrou que não pretendia resolver a situação daquela forma racional, ao invés disso, avançou sobre mim, agarrando meus cabelos bruscamente enquanto gritava palavrões. E rapidamente, estávamos nos atracando aos puxões e tapas, era óbvio pela violência empregada que no mínimo, ela queria me causar um acidente de cima daquela escadaria.

“Isso é uma novela, com certeza!” Pensei comigo mesma, agarrando-me aos seus cabelos quando senti que estava há poucos sentimentos da beirada de mármore da escadaria, olhei para baixo e engoli em seco quando calculei a distância, tendo certeza que não sobreviveria àquela queda.

– Isso já passou dos limites! Gritei chutando-a, conseguindo me desprender de suas mãos, quando os grampos se soltaram e a peruca foi arrancada. – Não seja idiota, você não precisa me matar apenas para esconder um segredo ridículo quanto infidelidade.

Obviamente ela me ignorou, e depois de passar a rápida surpresa por descobrir a peruca, ela a jogou longe, avançando novamente sobre mim. Foi nesse momento que ambas caímos, rolando uns dois lances da escada até que finalmente, eu consegui segurar em um detalhe do corrimão, impedindo que ela caísse também pois, estava segurada em mim.

– Socorro! Gritei, ouvindo a minha voz soar ofegante e quase inaudível.

Tente me erguer, sentindo uma dor forte no braço e arregalei os olhos assustada ao ver Neuza erguendo-se, tendo o vislumbre de vê-la caminhar até ficar à minha frente antes de me chutar, fazendo meu corpo já dolorido doer ainda mais, mas continuei me segurando, tentando meu melhor para não cair.

– Só morra logo... – Ela reclamou pisando nos meus dedos com seu salto alto.

Gritei, tentando afastá-la com a outra mão, mas não consegui.

Fechei meus olhos, esperando pelo impacto da queda e senti uma forte angustia em imaginar que morreria de maneira tão simples, o que se passaria por um acidente ridículo, digno da novela mais dramática. Porém, meu corpo não chegou ao chão, sendo amparado por algo macio que apoiava as minhas costas, abri meus olhos surpresa, e percebi que alguém estava me segurando.

Eu estava a salvo, mas o susto foi grande o suficiente para me fazer desmaiar, antes mesmo de agradecer à pessoa que havia impedido a minha queda.

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