Nada Mais
Quando ele disse que adiaríamos o casamento civil, eu ainda segurava a colher de sopa.
— Vamos deixar para a próxima.
Alexandre Machado pousou os talheres com a mesma naturalidade de quem apenas comentava que o dia estava bonito.
Tomei uma colherada de sopa, dei uma mordida no pão e continuei comendo em silêncio.
— Tudo bem.
Ele me lançou um olhar, baixou a cabeça para se servir e estendeu os talheres em direção à travessa. Depois, tornou a olhar para mim.
— Você não está brava?
Comi mais um pouco de sopa e respondi com tranquilidade:
— Não estou.
Já fazia seis meses desde a cerimônia de casamento, e aquela era a décima sétima vez que adiávamos o casamento civil. Ele já estava acostumado com aquilo. Eu também.
Comi devagar, sem pressa, e terminei a sopa aos poucos.
Ele não voltou a tocar nos talheres.
Depois da última colherada, me levantei para recolher tudo.
Quando passei ao lado dele, Alexandre segurou meu pulso.
— Margarida, segunda-feira que vem. Na próxima semana estarei livre, pode confiar. Afinal, nós já fizemos a cerimônia, então alguns dias não fazem diferença. Pode ficar tranquila, desta vez eu não vou faltar.
Baixei os olhos para a mão dele, depois ergui o rosto e sorri.
— Tudo bem.
Nos últimos seis meses, ele disse "na semana que vem" nove vezes, "com certeza" treze e "pode ficar tranquila" dezesseis. Mesmo assim, nunca chegamos a assinar os papéis do casamento civil.
E também não íamos assinar na semana seguinte, porque, desta vez, quem faltaria ao compromisso seria eu.