เข้าสู่ระบบPOV Thomas A pele da mão dela sobre os meus nós dos dedos queimava mais do que a soda cáustica que a gente usava para tirar a craca do casco dos navios. Puxei a mão com um movimento brusco, arrastando o braço para trás até a borda da mesa. O ar no salão da Gaivota Manchada parecia ter ficado pesado demais, impregnado de sândalo, rum barato e de um passado que eu passara dez anos tentando afogar em pó de serra. — Você não vai comprar uma única tábua deste cais, Maíra — falei, a voz descendo dois tons, rouca, rasgando o fundo da garganta. — O chão onde você está pisando pertence à cooperativa dos pescadores e à bancada da Parker Crown. Você pode ter os milhões de Bristol, mas aqui em Port Regis dinheiro de fora não compra nem o sal da praia. Maíra deu uma risada baixa, um som aveludado que ressoou contra o teto de madeira carcomida da taverna. Ela recostou-se na cadeira de palha, cruzando os braços e me encarando com uma satisfação predatória: — A Parker Crown? O Elliot pode ter g
POV Thomas A recusa foi curta, seca e dada antes que os pneus do carro de Parker tocassem o cascalho da alameda: — Você não vai negociar a minha vida em saguão de estalagem, Elliot. O assunto é meu. A fatura é minha. Deixei os dois na varanda do casarão e desci a colina a pé, cortando caminho pelas trilhas de cabras que rasgavam a encosta de ardósia. A caminhonete ficou estacionada debaixo dos carvalhos; eu precisava do vento salgado chicoteando o meu rosto, da queimação nos joelhos e do chão pedregoso sob as solas das botas para ter certeza de que continuava inteiro e acordado. Dez anos. Dez anos dormindo em catre de lona, acordando com o cheiro de peixe seco e calafeto, achando que o fantasma da bacia do Severn tinha se afogado nas águas turvas do canal. Bastara uma assinatura técnica no rodapé de um laudo de emergência — um gesto feito para impedir que a casa de Camille e Leo desabasse no abismo — para aquela mulher puxar o cordão do passado e descer até o meu refúgio com a im
POV Elliot Parker A lareira do quarto da torre crepitava com duas toras secas de bétula. O calor denso e reconfortante preenchia o aposento circular, afastando de vez a umidade áspera que subira da baía durante toda a manhã. Leo adormecera de lado na cama baixa, ainda vestido com o suéter azul-marinho, com a mãozinha descansando sobre a maquete da escuna. O compasso de latão repousava sobre a mesa de cabeceira, polido e imóvel, cumprindo com louvor a sua sentinela. No corredor do primeiro andar, Camille terminava de guardar os cobertores sobressalentes no armário de linho. A tensão que quase despedaçara a casa horas antes fora substituída por uma calmaria exausta, solene, daquelas que se seguem ao término de uma tempestade devastadora. Quando me aproximei por trás, envolvendo a cintura dela com os braços e repousando o queixo em seu ombro, ela soltou um longo suspiro, recostando a cabeça contra o meu peito. — O Leo não acordou quando você subiu com a lenha — ela murmurou, os dedo
POV Thomas O estalo do couro das botas de Maíra contra os pranchões da passarela de madeira vinha ritmado, sem pressa. Dez passos. Oito. Cinco. Eu não me escondi atrás das tábuas. Quem foge para o fundo do galpão entrega o comando da manobra, e se havia uma coisa que aquela mulher me ensinara em uma década inteira de disputas nos estaleiros do Severn, era que nunca se dá as costas a um tubarão que já sentiu o cheiro da carcaça. Peguei um pedaço de estopa suja de graxa na borda da bancada e comecei a limpar a lâmina de um formão largo, mantendo a cabeça baixa até a sombra esguia dela cobrir a soleira da porta corrediça. O cheiro que invadiu o barracão não pertencia àquele cais. Não era breu, salitre ou a fumaça de carvão vegetal da minha forja; era sândalo amargo, íris e o couro caro de quem viajava de primeira classe. O mesmo perfume que costumava ficar impregnado nos lençóis de linho dos hotéis executivos de Bristol após semanas inteiras de guerra judicial e sangue quente nas ma
POV Thomas O cheiro de serragem de cedro e óleo de linhaça costumava ser o suficiente para calar qualquer ruído do mundo. Depois que Elliot e Camille subiram a serra com o garoto no banco traseiro, a marina voltou ao ritmo do mar: o marulho constante lambendo os pilares de concreto, o grasnado das gaivotas disputando restos de tainha e a forja estalando baixo no fundo do meu barracão. Eu estava curvado sobre a bancada lateral da oficina, com o formão de meia-polegada na mão direita, desbastando o encaixe da quilha de um bote quando um som estranho cortou a calmaria do cais. Não era o estalo seco dos motores a diesel dos barcos de pesca nem o tranco da minha própria caminhonete. Era o zumbido aveludado, potente e cirúrgico de doze cilindros em linha, roncando baixo como um felino rondando a praia. Parei o movimento da lâmina no meio do veio da madeira. Aproximei-me da porta corrediça do galpão, mantendo-me na sombra das tábuas de cedro empilhadas. Pela abertura de meio metro, olh
POV Elliot Parker O cheiro de querosene, óleo de linhaça e serragem úmida enchia o galpão da marina. O fogo baixo da forja de canto estalava com carvão de pedra, aquecendo o ar frio que entrava pela fresta das portas corrediças de madeira. Eu estava sentado em um cepo de carvalho diante da longa bancada de carpinteiro naval. Havia arrancado a gravata e o paletó amassado, jogando-os sobre uma caixa de cabos de aço. As mangas da camisa de linho estavam arregaçadas até os cotovelos, e minhas mãos, manchadas de fuligem cinzenta, seguravam uma lixa de ferro com a qual eu limpava a ferrugem superficial de uma polia de tração que Thomas deixara desmontada. O movimento mecânico da lixa contra o metal não acalmava a cabeça. Meus olhos ardiam pelo cansaço absurdo das últimas quarenta e oito horas, e cada batida do meu coração parecia bater contra a parede de concreto que Camille erguera entre nós na soleira da casa. O rangido metálico da porta corrediça do galpão ecoou pelo vão alto do tel







