LOGINO homem, lá dentro do banheiro, clicou a língua e levantou a voz: — Eu falei de abdômen. Em que é que você tava pensando?Luiza também caiu em si. Sempre que ela ficava sozinha no mesmo ambiente que ele, os pensamentos dela tomavam um rumo perigoso, entortavam num piscar de olhos e corriam direto para o lado mais indecente possível.Ainda bem que a porta já estava fechada e o homem lá dentro não tinha como ver que o rosto dela tinha ficado vermelho até o pescoço.O box era de vidro jateado. Gustavo, do lado de dentro, enxergou a sombra do lado de fora se afastar às pressas, num jeito típico de quem fugia tomada de vergonha e raiva misturadas. O rosto anguloso dele se curvou num leve sorriso.Ele foi até a bancada da pia e, quase no mesmo instante, o olhar dele caiu sobre a escova de dente elétrica dele, colocada ali, lado a lado com a dela, uma à esquerda, outra à direita.Ela ainda não tinha guardado a dele.Aquilo queria dizer que Ethan, com certeza, ainda não tinha chegado a morar
— Achou o pijama? — A voz dela veio do banheiro, macia, úmida de vapor. — Aqui é igual ao apê da frente, o closet fica bem de frente pra cama…O incômodo que Gustavo tinha acabado de domar parado na porta do banheiro voltou a ferver, agora convertido num calor impaciente que corria solto pelo sangue.Lá dentro, Luiza só então se lembrou das camisolinhas curtas e sensuais que ela tinha guardado.Lilian tinha dado todas para ela, dizendo que, de vez em quando, ela podia usar só para “se agradar”, nem que fosse só pra se olhar no espelho.Mas, no último ano, a vida dela tinha sido uma corrida sem fim. Ela mal tinha tido tempo de pensar em agradar a si mesma.Luiza, conhecendo o mau-caratismo básico que Gustavo carregava no sangue, já tinha certeza de qual camisola ele ia escolher pra levar até ela.Só de imaginar a cena, o rosto dela, já quente por causa do vapor, pegou fogo de vez. Aquilo seria ainda mais constrangedor do que sair enrolada numa camisa dele.Toc-toc…A batida na porta vol
Luiza, porém, não tinha parado para pensar na questão que ele tinha levantado. No fim das contas, o maior negócio do Grupo Marques, anos atrás, tinha sido justamente o ramo imobiliário. Somando isso ao patrimônio de Gustavo, se alguém falasse de imóveis em Cidade A, se ele ficasse em segundo lugar, dificilmente alguém teria coragem de se colocar em primeiro.O apartamento em frente era só um imóvel que ele tinha alugado, nada mais. Sem falar que o lugar onde ele realmente morava, o Solar do Lago, ficava a poucos quilômetros dali.Luiza ficou um instante sem reação: — Você não vai voltar pro Solar do Lago?— Não. — Gustavo respondeu com a maior naturalidade do mundo. — Se eu tô sem lugar pra ficar, eu vou atrás de quem?Aquilo combinava perfeitamente com o jeito dele.O movimento de Luiza parou por um segundo. Ela ergueu a mão e limpou a espuma de xampu que quase escorria para os olhos: — Então eu deixo o Miguel e a Noemi ficarem aqui em casa.— Ótimo. — Gustavo soltou um riso curto
A DK SAÚDE parecia nutrir por Luiza uma má vontade ainda maior do que a que tinha contra o próprio Grupo Marques. Desde o primeiro vazamento, a mira tinha sido apontada direto para ela.Quando Luiza subiu e apertou a campainha, foi Noemi quem veio abrir a porta.Luiza falou com um tom carregado de culpa: — Noemi, me desculpa… Eu acabei envolvendo você e o Miguel nisso…— Luiza… — Noemi olhou para o rosto dela, bem menos corado do que de costume, e o coração dela já tinha ficado apertado. Quando ela ouviu aquelas palavras, ela se sentiu ainda pior. Ela puxou Luiza para dentro. — Escuta o que você tá dizendo. Que história é essa de que você “envolveu” a gente? A culpa é de quem sai julgando sem saber de nada. O que isso tem a ver com você? Se o Miguel escuta, ele briga com você na mesma hora.O peito de Luiza esquentou um pouco. — Então eu não falo mais.Depois que ela entrou e trocou de sapatos, ela já tinha decidido que não ia atrapalhar os dois por muito tempo. Ela se sentou no so
Gustavo, ao ouvir aquilo, sentiu o peito apertar ainda mais. Ele ficou olhando fixo para ela.— Tudo que eu falei entrou por um ouvido e saiu pelo outro, foi?Ele já tinha deixado bem claro a posição dele: ele não tinha problema nenhum em ser pai daquela criança. Mas, pelo jeito, ela não tinha escutado uma palavra.Luiza estava prestes a responder quando o carro diminuiu e parou embaixo do prédio do Condomínio Bela Vista.Jacarias abaixou a divisória central: — Gustavo, Luiza, chegamos.Luiza olhou pela janela, mas não teve intenção de descer. — Eu quero ver primeiro o Miguel e a Noemi.Os dois já tinham idade, e, com todo aquele susto, era impossível que eles não estivessem abalados.Se Luiza não visse os dois com os próprios olhos, ela não ia ficar tranquila.Gustavo ergueu um pouco o queixo: — Eles estão no 2202.Depois que ele desligou a ligação com Raul, ele tinha mandado Leonardo dar um jeito de tirar Miguel e Noemi de casa e acomodá-los provisoriamente no 2202.Quando ouvi
Ethan e Gustavo, no fundo, não eram tão diferentes assim; estavam um rindo do outro quando, na prática, os dois tinham tropeçado quase no mesmo lugar.E, ainda por cima, a chance de Luiza ficar com Gustavo era ainda menor do que a chance de ela reatar com Ethan.— Tá bom. — Ethan concordou, e ainda aconselhou. — Hoje em dia, o pessoal se deixa levar muito fácil pelo que aparece na internet. Essas coisas que o povo tá falando de você, tenta não levar tão a sério. O mais importante agora é o bebê. Você tem que colocar ele em primeiro lugar.Luiza sabia muito bem que o humor da mãe na gravidez também afetava o desenvolvimento do bebê.Ela baixou os olhos para a própria barriga e, só de pensar que ali dentro existia uma vidinha, o coração dela amoleceu inteiro. Ela sorriu e assentiu: — Uhum, eu sei. Você não precisa se preocupar comigo.Gustavo olhou para o sorriso suave no rosto dela e sentiu aquilo quase como um incômodo físico.De que adiantava ele aceitar ser o pai daquele bebê? Etha







