로그인No carro de Mark que ele havia deixado no aeroporto, com o ar-condicionado frio demais, o cheiro de couro novo e uma rádio de surf tocando bandas de rock alternativo, Luna observava pela janela enquanto o mundo mudava diante de seus olhos.
A paisagem transitava de avenidas e prédios para ruas pequenas e casas baixas, de shoppings para pequenas lojas de surf, de trânsito intenso para ruas mais tranquilas, com pessoas andando de bicicleta, carregando pranchas debaixo do braço, chinelos nos pés. Tudo parecia mais leve, e de alguma forma a lembrava de casa. A costa se anunciava em placas de praias, e, vez ou outra, o mar surgia entre as casas e colinas, azul e imenso.
Mark, no banco do motorista, apontava com entusiasmo:
— Aquela é Dana Point… ali começa San Clemente. A casa da equipe fica bem perto daqui. E aquelas praias ali embaixo? Trestles, Lowers, Bundies… você vai ouvir esses nomes todos os dias.
Luna apenas observava, absorvendo tudo em silêncio. Ainda não sabia exatamente em qual curva ficava a casa, nem como seria viver com pessoas que nunca tinha visto. Mas em poucos minutos, aquele lugar se tornaria seu novo lar.
O carro entrou em uma rua arborizada, cercada por casas grandes, de paredes claras e janelas amplas voltadas para o mar. Um portão de madeira se abriu, dando acesso a uma área de estacionamento onde bicicletas se acumulavam, pranchas descansavam encostadas nas paredes e uma van da equipe ocupava um dos espaços.
— Chegamos — anunciou Mark, estacionando. — Bem-vinda à Surf House.
Assim que Luna saiu do carro, o ar salgado entrou direto em seus pulmões. O cheiro era familiar — sal, areia, maresia — mas o significado era outro. Aquilo não era mais só refúgio. Era trabalho, a construção de uma carreira, seu futuro.
A casa era enorme, com dois andares, uma varanda ampla, redes espalhadas, cadeiras de praia, uma longa mesa de madeira. Na lateral, uma área externa com churrasqueira, um espaço de convivência, um fogo de chão cercado por troncos improvisados como assentos. Tudo tinha identidade praiana: cores claras, almofadas vibrantes, toalhas penduradas, pranchas antigas decorando as paredes.
A porta da frente estava aberta, deixando a brisa circular livremente.
Quando entraram, Luna diminuiu o passo, segurando a mala com as duas mãos à sua frente, como se aquilo pudesse protegê-la.
A sala de estar era ampla, com pé-direito alto e enormes portas de vidro voltadas para o mar. Havia assentos espalhados para todos os lados, notebooks abertos, pranchas recém enceradas espalhadas pelo chão. Algumas pessoas conversavam baixo no sofá, outras riam alto.
E, sentado um pouco afastado, perto da porta de vidro, havia um garoto com um violão. Estava sentado em um banco alto, uma perna apoiada no apoio, a outra solta, o violão descansando contra o corpo. Os dedos se moviam distraídos pelas cordas, dedilhando uma melodia baixa, quase íntima, algo que parecia existir apenas para preencher o silêncio da casa.
Ele não percebeu Luna de imediato.
Quando Mark pigarreou anunciando sua chegada, a música cessou.
— Pessoal, obrigado por ficarem aqui esperando. Eu lhes apresento a sua mais nova companheira de equipe! Esta é a Luna. Luna estes são Tyler, John, Peter, Kira, Jordan e Meg. – Ele dizia apontando para cada um na sala. - E este ali atrás é o Ethan.
Ethan levantou os olhos. E sua mente travou. Ele simplesmente a encarou.
Luna estava parada na entrada, mala na mão, uma mochila pendurada em um dos ombros, short jeans, camiseta simples colada no corpo pelo calor da viagem, cabelo loiro preso num rabo de cavalo frouxo que deixava mechas soltas emoldurando o rosto. Alta, pernas longas, ombros fortes. Curvas nos lugares certos. A pele bronzeada brilhava sob a luz da tarde, olhos verdes que pareciam carregar o mar inteiro, lábios em formato de coração num sorriso tímido. Ela era linda, mas não do tipo frágil; era o tipo que te derruba numa onda e te salva na próxima.
Ele piscou, tentando disfarçar, mas já era tarde. Os olhos dele estavam grudados nela, traçando o contorno do braço definido, a linha do pescoço, o jeito como ela segurava a mala como se fosse um escudo.
Luna o encarou de volta.
Ele era alto, pele queimada pelo sol e cabelos castanhos claros que pareciam estar sempre despenteados, como se ele passasse as mãos por eles o tempo todo — e provavelmente era isso mesmo. Mechas mais claras, clareadas pelo sol, refletiam a luz quando esta incidia sobre sua cabeça de lado.
Mas foram os olhos dele que chamaram sua atenção — olhos gentis, atentos, de um tom quente que a fazia lembrar mel avermelhado, quase âmbar. Olhos que não invadiam. Eles simplesmente observavam.
Ethan piscou, como se estivesse se lembrando de como se respirava.
— Oi… — disse alguém, quebrando o silêncio.
Foi Jordan a primeira a se levantar.
Morena, com cabelos curtos e sorriso fácil. Ela veio em passos rápidos, já com os braços abertos.
— Bem-vinda, Luna! — falou com entusiasmo, abraçando-a. — A gente já viu alguns vídeos seus. Você é incrível! Eu vou ser sua companheira de quarto.
Luna sorriu, um pouco tímida.
— Obrigada. Legal.
Enquanto isso, Ethan finalmente se levantou, com o violão pendurado no ombro.
— Eu sou o Ethan — disse, aproximando-se. — Seja bem-vinda.
No movimento de dar um passo à frente, a alça do violão se enroscou no encosto do banco.
O violão o puxou de volta e Ethan tropeçou.
— Merda… — murmurou baixo, tentando soltar a alça do violão sem derrubar tudo no chão.
Tyler riu alto. John deu uma cotovelada em Peter. Kira ergueu uma sobrancelha, com um olhar de desgosto.
Jordan mordeu o lábio para não gargalhar.
Quando ele finalmente conseguiu se desgrudar, o rosto já estava completamente vermelho.
— Desculpa — disse, coçando a nuca, visivelmente constrangido. — O violão aparentemente não gosta muito de boas primeiras impressões.
Ela piscou, surpresa, e então riu. Um riso leve, genuíno, que fez o estômago dele dar um nó. Os olhos verdes dela brilharam, os lábios se curvaram de um jeito que o deixou ainda mais perdido.
— Sem problemas — respondeu. — Ele só estava querendo se apresentar primeiro.
Ethan sorriu, ainda sem saber direito onde colocar as mãos.
Por alguma razão que Luna não sabia explicar, ela teve a sensação de que estava diante de sérios problemas.
Foi então que Luna percebeu o olhar de Kira sobre ela.
Sentada no sofá, pernas cruzadas, cabelo pretos longos presos em um coque displicente, ela observava tudo com as sobrancelhas levemente levantadas com ar de tédio. O sorriso de Jordan e a falta de jeito de Ethan, claramente a incomodavam. O olhar de Kira passou rapidamente de Luna para Mark, como se perguntasse, sem palavras, se aquela nova ocupante realmente ficaria ali.
— Oi — murmurou Kira, sem muito entusiasmo.
— Oi — respondeu Luna, educada.
— A cozinha é ali, se quiser comer alguma coisa — disse Ethan, recuperando a compostura e apontando com o queixo. — Se você quiser, depois eu te mostro o quarto.
Os demais rapazes assobiaram alto e começaram a zoar.
— Calma Ethan! A menina mal chegou e você já quer levá-la para o quarto! – Tyler disse, rindo.
Ethan olhou para Tyler com um olhar de “Cala essa boca”.
— Garotos, garotos... Não a assustem! Pode deixar que eu te levo para conhecer a casa. — respondeu Jordan, dando um tapa amigável nas costas de Luna. — Vem. Café primeiro, decisões depois.
— Luna, vou deixar a Jordan te apresentar tudo. Seja bem vinda ao time, mais uma vez. Te mando depois atualizações do seu cronograma com os patrocinadores. — Mark se despediu e saiu pela porta da frente, deixando Luna com aquelas pessoas que claramente a analisavam de cima a baixo com curiosidade.
Luna seguiu Jordan, deixando sua mala perto da escada que levava ao andar de cima, o coração dividido entre o nervosismo de ser engolida por aquele novo mundo e a excitação de finalmente estar ali.
Antes de chegar à cozinha, ela lançou um olhar rápido para trás.
Ethan já estava de novo sentado, o violão apoiado na coxa. Mas agora os olhos dele estavam nela, curiosos.
Luna desviou o olhar imediatamente.
“Foco,” lembrou a si mesma. “Você veio por uma carreira. Nada pode te tirar disso.”
Mas a imagem daqueles olhos cor de mel, o sorriso embaraçado e rosto vermelho, ficaram com ela, mais do que ela gostaria.
Ethan estava sentado na areia com o violão apoiado no colo, os dedos repousando sobre as cordas sem realmente tocá-las. O sol se espalhava pelo mar em uma faixa dourada quase líquida, e o vento morno trazia o cheiro familiar de sal, protetor solar e vida. Àquela hora do dia, a praia estava em paz, como se o mundo tivesse concordado em desacelerar por alguns instantes apenas para que ele pudesse assistir àquela cena.Luna estava no raso com a filha deles, que parecia uma versão em miniatura dela, segurando uma prancha infantil enquanto tentava ensiná-la a ficar em pé sobre ela. A água lhes batia na altura dos joelhos, e cada onda pequena que se formava virava um acontecimento digno de celebração.A menina, com os cabelos claros presos de forma torta e um maiô colorido, concentrava-se com a seriedade absoluta que só as crianças muito pequenas conseguem ter. Franzia a testa, apertava os lábios, dobrava um pouco os joelhos como tinha acabado de aprender. Luna a orientava com paciência, seg
Luna desceu as escadas ao lado de Ethan com a sensação desconfortável de que a conversa que tinham acabado de ter não os tinha levado a lugar nenhum.Ethan parecia tão decidido a se ajustar à vida dela, a encontrar uma forma de permanecer por perto, que aquilo, em vez de tranquilizá-la, só a deixava mais angustiada.Luna não suportava a ideia de vê-lo renunciando a algo importante por sua causa. Não suportava a possibilidade de que, um dia, ele olhasse para trás e percebesse que tinha trocado sonhos próprios por um amor que talvez nem se sustentasse.E, se chegasse a esse ponto, se a única forma de o proteger fosse afastando-se, então ela faria. Doeria, ela sabia. Mas faria. Porque, por mais que o amasse, não seria a razão de ele desistir de qualquer parte de si mesmo.Esse pensamento ainda ecoava em sua mente quando chegaram ao andar de baixo e perceberam que todos estavam reunidos na sala principal. Havia um movimento estranho no ar, um tipo de expectativa que Luna não conseguiu nome
Depois de dias em que tudo girava em torno de horários, baterias, estratégia, tensão e expectativa, aquela noite tinha um peso diferente.A etapa de Pipeline tinha terminado, e Ethan também tinha se sagrado campeão. Isso, por si só, já teria sido motivo suficiente para transformar a casa numa festa.A churrasqueira acesa no quintal, o som de vozes e risadas misturadas com música tocada um pouco mais alto do que deveria.Alice e Noah tinham ficado para comemorar também. Só isso já fazia a noite parecer impossível de ser mais perfeita para Luna.Luna observava tudo com um copo na mão, sem realmente beber. A mãe ria perto da bancada externa, com o rosto mais solto do que ela costumava ver, e Harris estava ao lado dela, curvando-se um pouco para ouvi-la melhor no meio do barulho. Havia algo de tão natural entre os dois que Luna sentiu vontade de sorrir.Do outro lado do quintal, Noah tentava, sem o menor talento para discrição, parecer casual ao redor de Meg. Era tão óbvio que chegava a se
Alice estava uma pilha de nervos. Era possível perceber isso na forma como ela andava de um lado para o outro, apertando as próprias mãos.Por mais improvável que parecesse, Luna estava calma. Era como se, em algum ponto da noite anterior, tivesse entregado a própria sorte aos deuses havaianos e decidido que aceitaria o que o mar escolhesse lhe dar. Se viesse a vitória, ela a receberia inteira. Se viesse a derrota, aceitaria em paz.Quando chegaram à praia, a primeira coisa que Luna percebeu foi que todos os seus amigos estavam ali. Todos visivelmente mobilizados pela mesma energia.E então Luna viu Harris discretamente pegar a mão de Alice, apertando-a com calma, como se emprestasse a ela um pouco da estabilidade que parecia faltar. A cena a fez sorrir. Mais engraçado ainda era ver os dois agindo juntos em torno dela, trocando observações curtas sobre o mar, o vento e a escolha da prancha como se formassem, sem nunca ter anunciado isso, um mesmo time.Luna ouvia tudo, assentindo quand
Quanto mais a competição avançava, mais Luna sentia que certas dúvidas deixavam de existir dentro dela. O cansaço acumulado no corpo, os músculos exigidos até o limite e o coração oscilando entre adrenalina e exaustão não embaralhavam seus pensamentos; ao contrário, pareciam arrancar dela tudo o que era ruído, até restar apenas o que era essencial.E o essencial era simples demais para continuar sendo negado. O sonho de ser surfista profissional permanecia intacto. Não era um impulso passageiro, nem uma fantasia juvenil alimentada pelas primeiras oportunidades. Era a vontade mais verdadeira que ela conhecia, a direção para a qual tudo dentro dela apontava desde muito antes de aprender a nomear o que sentia quando estava sobre uma prancha.Mas estar ali, surfando no Havaí, colocava outra verdade diante dela com a mesma firmeza. Aquele lugar não era apenas palco de uma competição importante, nem uma lembrança bonita de tempos mais simples. Era casa. Sempre tinha sido. E, por mais que a C
Naquela noite, Luna foi até a casa da equipe. Sua mãe e Harris tinham dito que ela poderia compartilhar com os demais o que tinha descoberto, se era isto que ela queria. Preferiam que fosse ela a contar, do que ficassem sabendo por fofocas.Assim que entrou na casa, percebeu que todos estavam em seu modo pré-competição. Não era exatamente tenso, mas era concentrado.Jordan foi a primeira a notar seu semblante.— O que foi? — perguntou, imediatamente alerta. — Você está com cara de quem sabe de uma fofoca das grandes.Luna soltou uma respiração curta pelo nariz e se jogou no sofá da sala.— Eu tenho mesmo uma coisa para contar.Aquilo bastou para que todos se reunissem, curiosos.Luna passou a mão pelos joelhos, organizando as palavras.— Minha mãe e o Harris estão... se vendo.Por dois segundos inteiros, ninguém reagiu.Então a casa explodiu.— O quê?! — Tyler foi o primeiro a gritar. — O nosso Harris?— Eu sabia que tinha alguma coisa estranha! — John completou, apontando para o nada.







