เข้าสู่ระบบEduardo Soares O voo de retorno de São Paulo para Belo Horizonte foi o trajeto mais longo e sufocante de toda a minha vida. Sentado na poltrona do jato particular, com o maxilar travado e os punhos fechados a ponto de os nós dos dedos ficarem completamente brancos, eu sentia o sangue ferver nas minhas veias como lava vulcânica. Cada segundo que passava sem que eu tivesse o controle absoluto da situação fazia a minha sanidade escorrer por entre os dedos. Assim que a aeronave tocou a pista do aeroporto da capital mineira, mal esperei o comissário abrir a porta da cabine. Desci as escotilhas a passos largos, com o paletó jogado por cima do braço e a gravata afrouxada no pescoço. O meu motorista particular já aguardava na área de embarque restrita com o sedã executivo blindado preto. — Para a delegacia regional. Agora! — ordenei com uma rispidez animalesca assim que abri a porta e me joguei no banco traseiro, fazendo o motorista engatar a marcha às pressas e arrancar cantando pneu
Eduardo SoaresO ronco abafado dos motores da aeronave particular que me transportava de Belo Horizonte para o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, parecia o som de uma engrenagem pesada moendo os meus pensamentos. Eu estava sentado na poltrona de couro reclinável do jato, com um exemplar de um boletim de agronegócio aberto no colo, mas os meus olhos não conseguiam fixar nenhuma letra daquelas estatísticas de mercado.A viagem havia sido marcada às pressas, motivada por uma oportunidade de ouro nos negócios da pecuária leiteira de alta performance que eu mantinha no complexo da Fazenda Santa Soares. Um dos maiores criadores e melhoristas genéticos de gado da raça Holandesa pura de origem, situado na região de Pirassununga, no interior paulista, estava liquidando parte do seu plantel de elite devido a uma reestruturação de sociedade. Eram matrizes jovens, com lactação comprovada acima de quarenta litros diários, portadoras de campeonatos em feiras agropecuárias do Sudeste. Para que
Rafael Ventura— Rápido... — o sussurro frágil de dona Beatriz ecoou pelo quarto escuro, carregado de um pavor antigo, mas misturado agora com uma centelha de esperança que ela havia perdido havia anos.— O tempo esgotou, Rafael. Os capangas lá fora não vão ficar desacordados por muito tempo, e se mais alguém aparecer, nós estamos mortos — alertou o Bruno, mantendo a lanterna apontada para a porta, com a arma firmemente em punho.Não hesitei nem por um segundo. Aproximei-me da cabeceira da cama hospitalar e comecei a tatear as fivelas de couro pesado que prendiam os pulsos esquerdos e direitos da senhora. As travas eram antigas, duras, emperradas pelo tempo e pela umidade do quarto, mas a urgência que queimava no meu peito me deu uma força bruta descomunal.— Calma, dona Beatriz. A senhora vai sair daqui agora mesmo. Eu tô tirando isso — falei, puxando com toda a força até ouvir o estalo mecânico da fivela cedendo.Libertei o pulso direito, depois o esquerdo. Os braços da velha
Rafael Ventura A madrugada ainda tingia o céu da serra de um azul-escuro profundo e gelado quando o meu despertador vibrou silenciosamente na mesinha de cabeceira. Desliguei o aparelho num toque seco para não acordar a Lorena, que dormia profundamente, com o rosto suave apoiado no travesseiro e os cabelos espalhados pelo lençol, exaurida pelas emoções e sustos do dia anterior. Levantei-me com cuidado, calcei mieu chinelos fui direto para o banheiro. Tomei um banho rápido com água fria para espantar o resto de sono e vestir uma roupa de lida pesada e discreta: calça cargo de sarja escura, jaqueta de couro resistente e uma camisa de algodão preto. Deixei uma pequena bolsa de viagem com mudas de roupa e documentos arrumada no canto do quarto. Aproximei-me da cama, inclinei-me devagar e deixei um beijo demorado e terno na testa da minha mulher. Ela se mexeu de leve, balbuciou algo sem nexo e aconchegou-se mais nos cobertores. — Desculpa por mentir para o seu coração, boneca... m
Melissa Mendonça O silêncio da minha cobertura costumava ser pesado, mas naquela noite ele trazia uma eletricidade diferente. Eu estava no meu boudoir particular, espalhando um creme hidratante de essência de rosas pelas mãos, analisando o reflexo da minha pele impecável no espelho da penteadeira. A porta do quarto abriu-se de supetão com um baque abafado contra a parede. Olhei pelo espelho e vi o Eduardo entrando a passos largos, com o paletó jogado displicentemente sobre o ombro e um sorriso largo, escancarado e sombrio desenhado no rosto. Ele exalava uma energia vibrante, quase eufórica — uma feição que eu raramente via nele desde a surra que levara do Rafael e a perda das terras no fórum. Deixei o frasco de creme de lado, levantei-me devagar, ajeitando o meu robe de seda preta, e virei-me para encá-lo com as sobrancelhas arqueadas. — Pela sua cara, Eduardo, ou você ganhou na loteria sem precisar comprar bilhete, ou aconteceu alguma desgraça muito grande na vida dos Ventur
Lorena Azevedo O ruído dos pneus da minha caminhonete sobre o cascalho do terreiro parecia o único som capaz de me trazer de volta à realidade. Desliguei o motor, respirei fundo e fechei os olhos por alguns segundos, tentando desacelerar o coração, que ainda batia num ritmo descompensado no peito. As mãos, firmes no volante até segundos atrás, voltaram a tremer levemente assim que o silêncio da fazenda me envolveu. — Chegamos, meus amores — falei com a voz mais serena que consegui reunir, olhando pelo retrovisor para o Miguel e a Vitória. — Mãe, a gente pode ir ver os potrinhos antes de tomar banho? — pediu o Miguel, já com a mão na maçaneta da porta. — Hoje não, meu filho. O dia foi longo e o sol já tá se pondo. Subam direto para o quarto, tirem esses sapatos sujos e troquem de roupa. Eu já subo para ajudar vocês com o banho. As crianças desceram correndo em direção à escadaria da sede, rindo e disputando quem chegava primeiro. Eu desci devagar, ajeitei a bolsa no ombro e







