MasukSua expressão era de pura mágoa, quase ferida. como um cachorrinho abandonado na chuva, bonito e perdido, com medo de ser deixado para trás.Larissa começou a questionar sua própria sanidade. Será que a febre a estava fazendo perder o juízo? Ela estava ficando cada vez mais iludida, chegando a imaginar que ele, talvez, realmente gostasse dela.Ela não queria alimentar mal-entendido.— Arthur, do que você está falando? Eu não quis dizer isso.Os olhos dele se estreitaram, provocadores.— Então o que você quis dizer?Larissa falou a verdade, sem rodeio.— Olha, o nosso casamento é por conveniência. E esse pingente é valioso demais. Eu tenho medo de perder. É claro que é melhor ficar com você, guardado.Ela apontou para os papéis na mesa.— E isso aqui também, é coisa demais.Porque, se um dia Arthur se apaixonasse por outra pessoa...E ela tivesse que devolver tudo, ia doer como se nunca tivesse sido dela.Melhor nem se acostumar.— É só isso que você está pensando? — Arthur pareceu conf
Larissa ficou olhando para Arthur, perdida demais para perceber o tempo.Arthur notou. Pousou a xícara, ergueu a sobrancelha.— Já terminou?Larissa não respondeu.Ele curvou a boca num sorriso pequeno e se levantou. Se aproximou.— Eu sou tão bonito assim?A voz dele a puxou de volta.Larissa piscou, assustada com o próprio flagrante. O rubor subiu de uma vez, quente.Sem saber onde enfiar a vergonha, baixou o rosto. Evitou o olhar dele e mordeu por dentro o lábio, como se isso pudesse esconder o que aconteceu.Só de imaginar como pareceu, quase perdeu o chão.Por sorte, Henrique saiu do escritório. E o mordomo avisou que o almoço estava servido na sala de jantar.Larissa quase suspirou de alívio. Foi para o corredor depressa, como quem recebe uma fuga. Nem olhou para trás....Quando terminaram a refeição de aniversário, o relógio já marcava quatro da tarde.Henrique estava cansado. Antes de subir para descansar, ainda apontou um dedo para Arthur, exigente.— Trata bem a minha menina
Larissa logo organizou os próprios pensamentos. Ergueu o olhar para Henrique, sincera.— Vô, o meu casamento com o Arthur, por enquanto, não pode virar público.Henrique levantou as sobrancelhas, surpreso.— Ah, é? E vocês estão com medo do quê?Larissa ficou sem jeito, irritada consigo mesma por ainda ter que lidar com aquilo. Mesmo assim, falou com honestidade.— Muita gente sabia de mim e do Ciro. Se do nada descobrirem que eu assinei com o Arthur, isso respinga nas duas famílias. E eu também não quero prejudicar a imagem do Arthur na empresa.Ela respirou e continuou, direta.— Eu quero um momento certo pra deixar claro que entre mim e o Ciro não existe mais nada. E anunciar que o casamento com ele não vai acontecer.Assim, o impacto caía ao mínimo.Henrique ouviu em silêncio. Pensou por alguns segundos e, de repente, riu.— Minha menina, você cresceu mesmo.O tom dele veio quente, orgulhoso.— E você com o Arthur faz mais sentido. Olha só. Já está pensando no antes e no depois, pe
Aquelas palavras mexeram com o coração de Larissa, fazendo-a quase se perder em devaneios novamente.Mas logo ela se desvencilhou daqueles pensamentos caóticos. Afinal, esse era o jeito dele: o puro estilo Arthur de ser.Seus métodos sempre foram implacáveis e certeiros; parecia não existir problema no mundo que ele não fosse capaz de aniquilar.Antes, Arthur era calado. E, quando abria a boca, vinha com ironia, sem misericórdia.Só que, desde que se reencontraram, ele agia diferente. Mais gentil. Atencioso. Estável. Tão sereno que quase fez Larissa esquecer quem ele costumava ser.— Tá. — Larissa afastou os pensamentos e assentiu de novo.— Amanhã eu vou com você. — A voz dele saiu morna, firme, do tipo que dava chão.Larissa achou melhor assim. Concordou....No dia seguinte, perto do almoço, os dois voltaram para a mansão Vasconcelos.O mordomo, Alfredo, viu os dois juntos e não conseguiu esconder a surpresa.Mesmo assim, manteve a postura. Não se atreveu a supor nada. Se aproximou
Larissa voltou para o quarto.Mal pegou o celular, a ligação de Henrique entrou.— Lari, faz tanto tempo. Eu estava com saudade.A voz veio leve, risonha, cheia de carinho.— Amanhã é seu aniversário. Vou fazer o que você gosta. Volta pra cá pra jantar. Você e o Ciro.Henrique continuou, divertido.— Você, menina teimosa, só sabe girar em torno do Ciro. Depois que vocês casaram, então sumiu. Nem vem ver este velho. Amanhã você volta, ouviu? Eu quero te ver.A história do casamento no cartório era do conhecimento das duas famílias.Henrique sempre acreditou que eles já tinham oficializado tudo.Entre os Vasconcelos, ele era quem mais gostava de Larissa.Larissa pensou que era hora de encarar certas coisas.— Tá bom, vô. Amanhã eu vou, sim.Só então Henrique pareceu satisfeito. Ela ficou mais um pouco na ligação, conversou, riu por obrigação. Depois desligou.Em seguida, abriu a última mensagem de Ciro.— Amanhã, 10h. No cartório. Eu já cedi. Para de fazer drama.Larissa franziu a testa.
— A Mel levou vários pontos por sua causa. Você passou de todos os limites.— Amanhã você resolve esse casamento e pede desculpas direito. Senão, isso aqui não dura.A arrogância dele praticamente transbordou da tela.Larissa até imaginou a cara que ele fez. A expressão feia. O surto ao ver as ligações recusadas.Ciro sempre girou em torno de si mesmo.E Larissa passou cinco anos orbitando ele, como se ele fosse o centro do mundo.De repente, parou.Ele não soube onde enfiar o próprio ego.Larissa não respondeu. Guardou o celular e desceu.Mal chegou ao andar de baixo, outra mensagem apareceu.— Amanhã, 10h. No cartório. Eu já cedi. Para de fazer drama....Na cozinha, havia movimento. E cheiro de comida no ar.Larissa virou o rosto.Arthur estava diante do fogão, de calça preta e camisa branca. Usava um avental. As mangas estavam dobradas até os cotovelos. Alto, reto, elegante demais até para aquela cena.O tipo de homem que parecia nascer para salões e reuniões.E, ainda assim, ali,