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Casei com um Homem do Morro, mas Ele É Quem Manda em Tudo
Casei com um Homem do Morro, mas Ele É Quem Manda em Tudo
ผู้แต่ง: Lyaah

O Pesa das Ladeiras

ผู้เขียน: Lyaah
last update วันที่เผยแพร่: 2026-10-28 22:01:04

CAPÍTULO 1: O Peso das Ladeiras e o Sonho em Branco

O cheiro de café coado misturado com o aroma de pão quente invadia a pequena cozinha da casa de dona Raimunda, mas o estômago de Ayla não pedia comida; pedia pressa.

Com os dedos ágeis, ela finalizava os últimos cachos do seu cabelo volumoso, solto em cascatas escuras que emolduravam seu rosto de pele parda escura e traços marcantes. Olhou-se no espelho rachado da pia, ajustando a blusa branca simples que usava por baixo da mochila gasta. Aos vinte e três anos, Ayla sabia que cada centavo economizado e cada gota de suor derramada nas ladeiras íngremes do Morro do Sabiá tinham um propósito único: a faculdade de Fisioterapia Ocupacional.

— Menina, tu vai perder o ônibus da descida se continuar encarando esse espelho como se ele fosse te dar respostas — a voz firme, porém acolhedora, de dona Raimunda ecoou pela sala. Sua tia, irmã daquele pai fantasma cujo paradeiro ela e a própria Raimunda nunca souberam, limpava as mãos no avental xadrez.

— Não estou encarando, tia. Estou só... recalculando a rota — Ayla sorriu de canto, revelando a boca farta e os olhos castanhos cheios de determinação.

— Rota de quem sobe e desce morro todo dia carregando livro pesado e sonho na mochila? — Raimunda suspirou, aproximando-se para ajeitar a gola da blusa da sobrinha com um carinho bruto de quem criara a menina com unhas e dentes após o abandono dos pais. — Cuidado lá embaixo, Ayla. O tempo tá fechado e o Sabiá não tá pra brincadeira ultimamente. Uns papos estranhos de gente de fora rondando...

Ayla assentiu, embora a violência e os boatos do morro fossem paisagens sonoras habituais de sua vida. No Sabiá, as leis eram ditadas por sussurros sobre o temido "Tenebroso", o chefe invisível que controlava cada palmo da comunidade. Mas Ayla não tinha tempo para temer fantasmas. O seu foco tinha nome e rostos miúdos: as crianças da clínica onde fazia estágio voluntário, pequenos guerreiros com paralisia cerebral e atrasos motores que dependiam das mãos dela para aprender a esticar os braços e alcançar o próprio futuro.

— Deixa o Tenebroso lá no canto dele, tia. Eu só quero cuidar dos meus pacientes e passar na prova de neuroanatomia de hoje — respondeu Ayla, pegando sua bolsa e dando um beijo estalado na bochecha enrugada da tia.

A descida do morro era uma maratona diária. As casas coladas umas nas outras, o labirinto de becos estreitos onde o sol mal conseguia tocar o chão de terra batida e cimento queimado, o som abafado de funk misturado com o latido de cães magros. Ayla conhecia cada degrau de cor. Sabia onde o lodo acumulado fazia escorregar, sabia quais becos evitar quando a tensão na comunidade aumentava.

Enquanto caminhava apressada, sentiu uma sensação estranha, como se estivesse sendo observada. Não era o olhar comum de cobiça ou curiosidade que algumas moradoras sofriam; era algo mais denso, firme, quase protetor. Ayla virou o pescoço rapidamente para trás, mas só viu um garoto empinando pipa e uma vendinha de bairro com a porta de ferro meio aberta. Sacudiu a cabeça, achando que era o estresse da faculdade começando a cobrar o preço.

O trajeto até a faculdade exigia pegar a lotação na base do morro, enfrentar o trânsito caótico e cruzar a cidade em pé num ônibus lotado. Para muitos, a rotina seria motivo de desistência. Para Ayla, era a prova viva de que ela não passaria a vida inteira à margem. Cada degrau da faculdade que subia representava um tijolo a menos na muralha que a separava de uma vida digna, longe da incerteza do abandono que marcou sua infância.

Na sala de aula, o dia passou num piscar de olhos entre apostilas de anatomia humana, ossos, músculos e a teoria de como devolver a autonomia a corpos infantis fragilizados. Ayla respirava fundo ao pensar no sorriso banguelas de Pedrinho, um garotinho de cinco anos que atendia na clínica e que, na semana anterior, conseguira segurar um brinquedo sozinho pela primeira vez graças aos exercícios que ela ajudara a aplicar. Era por isso que ela resistia.

No final da tarde, o retorno ao Morro do Sabiá trouxe o peso da noite que começava a desabar. O céu tingia-se de um cinza chumbo ameaçador, e as primeiras gotas de uma chuva tropical grossa começavam a castigar o asfalto e as telhas de zinco.

Ayla apertou o passo na subida da ladeira principal. O vento frio trazia o cheiro de terra molhada e o eco abafado de sirenes distantes. Os comércios locais começavam a baixar as portas mais cedo, indicando um clima de alerta na comunidade.

Foi ao virar a esquina do Beco das Acácias — um atalho estreito e mal iluminado — que o coração de Ayla disparou contra as costelas.

A silhueta alta e imponente parada bem no meio da passagem bloqueava a luz fraca de um poste oscilante. Um homem largo de ombros, vestindo uma jaqueta preta pesada, capuz puxado e o rosto parcialmente na penumbra. Mas foram os olhos que paralisaram Ayla no lugar: escuros como a noite sem lua, brilhantes com uma intensidade cortante que parecia ver através da alma dela.

Ayla deu um passo para trás, a respiração presa na garganta, enquanto a mão forte do homem se estirava para segurar o braço dela antes que ela pudesse sequer gritar.

— Calma, guria — a voz dele era grave, rouca, mas carregada de uma urgência inexplicável. — Por aqui hoje, não. Volta.

O tom não era de ameaça comum; era de comando absoluto. E, naquele segundo, enquanto o cheiro de chuva forte cobria o beco, Ayla sentiu um arrepio gélido subir pela espinha. Aquele homem não era um morador comum. E ela estava prestes a descobrir que o mundo em que vivia guardava segredos muito maiores do que jamais imaginara.

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