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17 Tentativa 1

last update 게시일: 2021-10-28 20:04:38

            Talvez eu ainda estivesse me sentindo solitário, ou apenas estivesse tentando mostrar para mim mesmo que eu conseguia partido melhor que Thomas, o que quer que fosse, havia feito com que eu ficasse, às vezes até tarde da noite, conversando com um desses crushes. Foi nesse momento que percebi o quanto estava me dedicando ao diário pois, cada coisinha emocionante que acontecia eu anotava, e às vezes, relendo esses trechos da minha vida, acabava rindo sozinho.

Por alguma loucura momentânea, acabei aceitando um encontro.

Lucas era o nome dele, parecia ser um cara interessante, com um papo muito bom inclusive, e sempre que tínhamos um tempo livre, conversávamos sobre as coisas que gostávamos em comum, sobretudo, filmes. Ele era loiro e tinha um porte atlético, como o de um jogador ativo, em suas fotos normalmente aparecia correndo acompanhado de seu cachorro enorme.

Tudo parecia estar indo bem, até que nos encontramos, e quando isso aconteceu, quis dar um tapa na minha testa por não ter percebido de imediato que, além dele estar interessado em um encontro casual, não era tão educado quanto pensei. E na verdade, ele tinha um habito péssimo: gostava de expor seus troféus, o que infelizmente isso se aplicava a mim também.

Marcamos de nos encontrar na entrada de um grande estádio de futebol americano, dois times conhecidos estavam jogando e como estaríamos entre centenas de pessoas, imaginei que seria mais seguro, mesmo à noite. Trocamos alguns cumprimentos quando nos encontramos e logo de primeira percebi que ele estava muito “animadinho” e quase me beijou naquele corredor cheio de pessoas.

Caminhamos pelas arquibancadas, procurando por um lugar agradável e enfim, sentamos ao lado de um grupo de rapazes que gritavam como loucos enquanto chacoalhavam suas camisetas longas e úmidas de suor, então mais parecia que eram eles que estavam jogando. Achei a cena engraçada, e até retribui o aceno de um deles, ganhando um boné suado do time, mas não reclamei, ele parecia estar tentando ser legal.

Foi nesse momento que o encontro foi por água a baixo.

Lucas começou a peitar o rapaz, reclamando por ele estar cantando a “sua garota”, e os dois teriam realmente brigado se não fosse pela chegada de seus amigos, dois casais na verdade, que o arrastaram para outra parte da arquibancada. Tive meu boné arrancado e jogado em algum lugar que sequer consegui descobrir, e ganhei uma camisa do time dele, que inclusive era o outro.

Depois de um tempo, ainda indignado por ter sido chamado de “minha garota”, senti meu sangue ferver de raiva enquanto sentia sua mão o tempo inteiro sobre a minha coxa, sendo que vez ou outra, parecia estar apenas mostrando para seus amigos que havia conseguido alguém com boa aparência.

Foi nesse ponto que perdi a paciência, tirei sua mão da minha coxa e tentei levantar, mas não consegui, tinha gente demais e seria impossível deixar o jogo naquele momento. Uma das garotas, que tinha cabelos curtos e loiros, focou seus olhos em mim, entregando-me um pouco de sua bebida.

Ela sem querer, foi a minha salvação pois, foi a única pessoa com quem consegui ter uma conversa decente, e acabei até descobrindo por ela que, na verdade, Lucas estava prestes a deixar o estado porque havia aceitado uma proposta de emprego em Washington.

Depois do jogo, Lucas sugeriu que iria me dar uma carona, contudo, seu plano estava mais do que obvio já que ele não fazia questão nenhuma de esconder seu desejo de me pegar dentro do carro. E como eu não estava nenhum pouco no clima, acabei de declinar o convite, sendo nesse momento que a discussão começou.

– Eu ‘tô’ me esforçando pra caral*! Lucas resmungou apertando o meu braço quando desistiu de tentar me beijar. – E você passou a porr* da noite inteira com cara de tacho...

– Se você fosse menos babaca... – Resmunguei baixo, chiando por causa do aperto no meu braço que ficou mais forte, e imaginei que ele havia me ouvido. – Solta meu braço, tá bom...?

– Qual é? A gente não precisa terminar o resto da noite assim... – Lucas comentou enquanto beijava o meu pescoço, aproveitando para deslisar as mãos pelo meu corpo.

– Só me leva pra estação, por favor... – Pedi em outro resmungo, esfregando as têmporas enquanto pensava que, se passasse a noite com ele, certamente iria contar todos os detalhes aos amigos no dia seguinte.

Lucas foi todo o caminho reclamando, taxando-me de fresco entre outros arquétipos, mas não discutiu mais, ou tentou me convencer a passar a noite num motel com ele. E no fim, quando chegamos ao destino, não houve despedida, por motivos óbvios, ele apenas parou em frente à estação de metrô, e eu desci, indo embora sem dizer mais nada.

            Minha noite havia definitivamente azedado, e enquanto observava as pessoas caminhando distraídas, seguindo suas vidas, acabei perdendo-me em pensamentos. Suspirei fechando meus olhos, e recostei a cabeça na parede fria atrás de mim, devaneando sobre as últimas horas. Havia sido um encontro no mínimo ridículo, cheio de momentos pelos quais eu poderia ter evitado passar, porém, de repente, as palavras de Mari vieram à minha mente, e entendi a que ela se referia quando disse que serviria de aprendizado.

            Eu havia me iludido com suas palavras e aparência, assim como havia acontecido com Thomas, e perceber isso havia feito o processo de ação-consequência fazer mais sentido em minha cabeça. Então, pensei comigo mesmo que, depois dessa, se eu continuasse repetindo os mesmos erros, seria unicamente por burrice.

Quando cheguei em casa, imediatamente exclui Lucas dos meus contatos, impedindo que ele mandasse alguma mensagem me xingando um pouco mais, e depois disso, fiquei xeretando um pouco no meu f******k, percebendo que ainda havia muitas fotos minhas com meu ex-namorado. Eu sabia que precisava excluir todas elas, me livrar de qualquer coisa que ainda me fizesse lembrar dele, então fiz uma limpeza, apagando não só as fotos que tínhamos em comum, mas também, as mensagens que deixávamos um na linha do tempo do outro.

            Senti orgulho de mim mesmo por finalmente, depois de quase dois meses, consegui apagar nossas lembranças das redes sociais e da memória do meu celular, incluindo seu número de contato.

            Fiquei com fome, não havia conseguido comer nada a noite inteira, estava muito estressado para ter apetite, então, optei por preparar um lanche na cozinha.

– Estou de volta... – Uma voz soou vindo da sala, era Noah.

Enquanto esperava o lanche tostar na grill, sai da cozinha e fui cumprimenta-lo direito, percebendo que ele carregava um enorme instrumento coberto por uma capa preta, mas que pelo formato, imaginei que fosse seu violoncelo.

 – Como foi o encontro? Ele questionou jogando-se no sofá, parecendo cansado.

– Poderia ter sido melhor... – Resmunguei fazendo uma negativa com a cabeça, e então ergui o dedo indicador em frente ao meu rosto. – Decidir fazer disso uma experiencia educativa.

– Educativa? Noah repetiu rindo, fazendo uma negativa com a cabeça também, e então, sentou-se endireitando as costas enquanto puxava a bolsa preta para perto. – Se importa se eu afinar o violoncelo?

– Claro que não! Respondi lhe sorrindo. – E já que você vai tocar pra gente, farei um lanchinho, tá com fome?

– Eu agradeceria muito... – Ele murmurou esboçando um sorriso muito bonito, seus dentes tinham um alinhamento perfeito por causa do uso de aparelho ortodôntico.

            Retornei para a cozinha e retirei o meu lanche que já estava pronto, colocando o sanduiche dele, enquanto esperava, procurei na geladeira por alguma latinha de refrigerante, percebendo que só restava uma, mas pensei comigo mesmo que poderíamos dividir. Quando voltei para a sala, ele estava vibrando as cordas com seus olhos fechados, como se dessa forma, pudesse ouvir melhor o som, o violoncelo estava firmemente preso entre seus joelhos e seu semblante parecia tão sereno que fui incapaz de atrapalha-lo.

            Sentei-me ao seu lado, ouvindo-o tocar e reconheci como sendo a melodia tocada das caixinhas de música, podendo até mesmo visualizar a bailarina girando lentamente em seu próprio eixo. Eu estava acostumado a ouvi-la tocada no piano, mas tinha quase certeza, que fosse Für Elise de Beethoven.

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