Mag-log inLorena AzevedoO grande dia finalmente tinha chegado. O ar no nosso quarto parecia carregado por uma eletricidade diferente, uma mistura de ansiedade, expectativa e a certeza de que estávamos prestes a entrar em um território inimigo. Mas, naquele exato momento, dentro do nosso quarto, o mundo lá fora não existia.Eu ainda estava enrolada na toalha felpuda branca, com as pontas dos cabelos úmidos caindo pelos meus ombros. Sabe por que eu ainda não tinha me vestido? Porque eu estava absolutamente hipnotizada, parada no meio do quarto, olhando para o meu homem.O Rafael estava diante do espelho de corpo inteiro, terminando de abotoar o colete. E, meu Deus, que visão. Ele vestia um terno preto de altíssima alfaiataria, sob medida, feito num tecido nobre de corte impecável que desenhava com perfeição cada centímetro daquele corpo forte, largo e esculpido pelo trabalho duro na fazenda. Os ombros largos e estruturados preenchiam o paletó de forma brutal; a cintura fina ajustava a calça de c
Rafael VenturaA poeira fina do galpão de baias ainda pairava no ar, cortada pelos feixes de sol do final da manhã, quando a Lorena ajeitou o vestido, me deu um último beijo demorado nos lábios e caminhou de volta para a sede da fazenda. Fiquei parado na porta da baia, encostado no portal de madeira, observando o caminhar firme e gracioso daquela mulher até que ela sumisse de vista pela alameda de ipês.Ajoelhei-me mentalmente ao perceber o estado em que ela me deixava. Essa mulher me desestabiliza por completo. Basta ela pisar no meu chão, me olhar com aqueles olhos compridos e soltar um suspiro para que eu esqueça o mundo, as obrigações e até a fúria que me consome. Inferno... Mas a verdade nua e crua é que eu adoro. Adoro a força que ela tem sobre mim, o jeito como me prende e me faz lembrar, no meio desse mundo bruto, o motivo pelo qual eu me levanto todos os dias antes do sol nascer.Respirei fundo, tentando colocar a cabeça no lugar e abaixar a adrenalina que ainda corria na
Lorena Azevedo O vento suave do final de tarde trazia o cheiro forte de terra molhada e mato fresco. Eu estava sentada na cadeira de balanço da varanda, aproveitando aquele momento raro de sossego para ler algumas páginas de um livro, enquanto a brisa fresca aliviava o calor do dia. A paz da Fazenda Ventura parecia inabalável, interrompida apenas pelo som dos pássaros e pelo pisar firme das botas no chão de madeira. Ergui os olhos do livro ao ver o Tião se aproximar a passos largos, tirando o chapéu da cabeça com ar intrigado. Ele segurava uma pasta de couro e um envelope refinado de tom verde-musgo, selado com uma cera dourada reluzente. — Dona Lorena... Com licença — disse o Tião, parando na ponta dos degraus da varanda. — Chegou isso aqui para vocês. Um rapaz engomado, numa caminhonete da Fazenda Santa Soares, acabou de entregar na portaria principal. Disse que era uma entrega urgente da presidência de um evento e que precisava da confirmação do recebimento. O meu estômago deu u
Melissa MendonçaA luz alaranjada do fim de tarde entrava pelas persianas da sala, cortando o ar denso da casa em fatias compridas. Eu estava parada no centro do cômodo, com uma prancheta de couro na mão e dezenas de catálogos de decoração espalhados sobre a mesa de centro, quando o Eduardo desceu as escadas. Ele vestia uma camisa social preta, com as mangas dobradas até os cotovelos, e trazia a expressão fechada de quem preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.Ajoelhei-me mentalmente para ter paciência. Peguei uma caneta de metal e apontei para a lista de buffet e floristas que eu tinha separado na minha frente.— Eduardo, por que diabos tem que ser eu a preparar essa festa? — perguntei, sem esconder o tom de indignação na voz, cruzando os braços e medindo-o de cima a baixo. — A propriedade é sua, a recepção é em seu nome e eu não sou sua cerimonialista.O Eduardo parou ao lado da mesa, pegou um copo com água e me encarou com aquele olhar gélido e arrogante de sempre.— Porqu
Eduardo SoaresO vapor do chuveiro ainda cobria o espelho do banheiro quando desliguei a torneira. Enxuguei o corpo sem pressa, sentindo os músculos das costas ainda tensos pela descarga de adrenalina e fúria de minutos atrás. Passei a toalha pela cintura, deixei o cabelo molhado pingando sobre os ombros e abri a porta, caminhando de volta para o quarto principal.A iluminação meia-luz do ambiente destacava a figura da Melissa deitada na cama de casal. Ela estava nua, coberta apenas por um lençol fino de cetim que cobria metade das suas pernas. As marcas roxas dos meus dedos já começavam a despontar na pele clara dos seus quadris, e o olhar que ela me direcionava no escuro era um misto de provocação, rancor e desejo perverso.Aproximei-me da cabeceira devagar, secando o peito com a ponta da toalha antes de jogá-la de qualquer jeito sobre a poltrona. Parei ao lado da cama, medindo aquela mulher que achava que podia brincar com os meus nervos sem pagar o preço.— Gostou da nossa foda? —
Melissa MendonçaO silêncio desta casa me sufoca. É um silêncio pesado, impregnado de derrota, raiva e de tudo aquilo que nenhum de nós tem coragem de dizer em voz alta. Por fora, minha vida parece perfeita. Glamour, dinheiro, conforto... tudo aquilo que tantas pessoas dariam qualquer coisa para ter. Mas, no fundo, eu daria tudo isso de volta para recuperar a vida que costumava ter.Eu só queria que Rafael voltasse a me olhar como antes. Queria recuperar um pouco da consideração que ele tinha por mim, antes de tudo desmoronar entre nós.Porque, no fim das contas, de que adianta ter o mundo inteiro aos meus pés quando o único homem cujo olhar ainda importa para mim sequer consegue me enxergar?Os dias vão se arrastando como se fossem anos, lentamente, torturando cada nervo do meu corpo, e nada acontece. O idiota do Eduardo não avança um único passo. Não consegue conquistar aquela garçonetezinha de beira de estrada, aquela caipira sem classe que destruiu tudo o que era meu.Eu não aguen







