เข้าสู่ระบบ❀ Elara Vitorino
Acordo lentamente, como se estivesse voltando de muito longe. O quarto está silencioso, com apenas uma luz suave vinda de um abajur. Viro a cabeça e ele ainda está ali — sentado numa poltrona ao canto, de costas para mim, olhando para a porta como se estivesse de guarda. Não foi um sonho. O cheiro dele, a forma como me cuidou, aqueles olhos que carregam anos de lembranças esquecidas em cada canto… tudo era real. Ele se vira quando me mexo. — Precisa de água? — pergunta baixo, se levantando devagar. — Sim. Obrigada. Ele me estende um copo com cuidado. Seus dedos não tocam os meus. Parece estar calculando cada movimento, mantendo uma distância que dói mais do que se ele estivesse longe. — Como se sente? — Melhor. Ainda um pouco lenta, mas… melhor. — Sento-me na beirada da cama, pés tocando o chão frio. — Agora me responde. O que você está fazendo aqui, Donomie? Depois de tanto tempo sem uma palavra… simplesmente aparece? Ele respira fundo, mas não encontra meus olhos. — Tenho assuntos pendentes por aqui. Não vim para te ver, mas vi que precisava de ajuda, então ajudei. Só isso. — Só isso? — Um sorriso amargo me escapa. — Sumiu há anos sem sequer um adeus, e agora aparece como se nada tivesse acontecido, agindo de forma tão indiferente. Que conveniente. — Sei que não tenho direito a nada. — Ele olha para as próprias mãos, cerrando os punhos brevemente. — Não espero que me entenda. Só cuidei de você porque precisava. Não leia mais do que isso. — Não se preocupe, não vou. — Endireito os ombros, afastando de mim qualquer emoção que não seja indiferença. — O passado ficou lá. Faz parte de uma versão minha que já não existe. Você não deve explicações e eu não tenho histórias para te contar sobre esses anos. Seguimos caminhos diferentes. Que bom que está bem. E obrigada por hoje. Não digo que ele foi meu primeiro refúgio. Não digo que, depois da minha mãe, ele foi a única pessoa que me fez sentir que pertencia a algum lugar. Não digo que, na noite em que ele sumiu, procurei por ele em todos os cantos até perceber que realmente tinha ido embora. Não digo nenhuma dessas coisas. Não quero que ele saiba que ainda existe alguma influência dele sobre mim. Mas ainda assim, sinto que falei demais. Demonstrei demais. Levanto-me e ajusto a saia do vestido. Ele dá um passo à frente, como se quisesse me segurar, mas para no meio do caminho, contendo-se. — Me desculpe, eu não quero bagunçar a sua vida. E é por isso que está agindo de forma tão fria comigo? Peguei os saltos que em algum momento foram descalços dos meus pés e a bolsa em cima do centro a frente do sofá que eu estava. — Já não há mais nada para bagunçar aqui. Saio daquele quarto sem olhar para trás. Obrigada, Donomie, e adeus. Repito para mim mesma até a porta fechar atrás de mim. Eu sempre imaginei como seria reencontrá-lo um dia, se isso fosse possível, e realmente aconteceu. E no pior momento possível! Depois de vê-lo, descobri que o ressentimento que guardei ia um pouco além do que eu pensei sentir. Se ele não quer bagunçar a minha vida, por que se hospedou no hotel da minha família? Ele se esqueceu das coisas que sabia sobre mim? Não pensou nem por um segundo na possibilidade de me encontrar aqui? O que ele estava pensando? Me senti patética, e esses pensamentos se perpetuaram na minha cabeça até que eu chegasse em casa. O sol ainda nem nasceu quando chego ao condomínio. O silêncio no corredor parece pesar. Abro a porta devagar, tentando não fazer barulho, mas assim que entro, paro no lugar. Lionel está sentado no sofá da sala escura, apenas a luz da rua filtrando pelas janelas. Ele não lê, não mexe no celular. Apenas está ali, esperando. Como se tivesse contado cada minuto da minha ausência. — Onde esteve? — A voz dele corta o ar, calma demais. — Não estava me sentindo bem. Fui para um quarto vazio no andar de baixo e descansei. Acabei adormecendo. — Falo com firmeza, mantendo a postura ereta. Não recuo um passo sequer. Ele se levanta e caminha devagar na minha direção. Não é uma corrida. É uma aproximação que me faz sentir pequena, vigiada. Seus olhos percorrem cada centímetro de mim — meu cabelo, minha roupa, minhas mãos, meu pescoço. Procura marcas, sinais, algum perfume estranho. Procura qualquer coisa que prove que não estive sozinha. — Um quarto vazio… — murmura, parando bem à minha frente, invadindo meu espaço sem pedir permissão. — E ninguém viu você? Ninguém esteve com você? — Estava só, Lionel. Como sempre estou quando não quero ser interrompida. Ele levanta uma mão e, antes que eu possa recuar, passa os dedos levemente pela minha clavícula, onde o vestido desce um pouco. Sinto um arrepio que não é de frio. Seus olhos escuros fixam-se nos meus, como se estivesse tentando ler algo que não está escrito. — Sua pele está fresca… mas seus olhos dizem que chorou. Ou será que foi o efeito do que bebeu? — O polegar dele roça levemente a minha bochecha, e eu me obrigo a não afastar o rosto. Sinto a raiva crescendo em mim. A bebida foi mesmo obra dele e de seus amigos psicopatas. — Só estou cansada. E com dor de cabeça. Como seria de se esperar. — Mantenho a voz estável, firme. Não mostro medo ou qualquer outro tipo de sentimento. Não dou a ele esse prazer. Ele inclina-se um pouco mais, cheira levemente perto do meu pescoço. Meu coração b**e descontrolado, mas eu não me movo. Se ele descobrir que estou mentindo… não sei o que faria. Mas também sei: não há rastro de Donomie em mim agora. Ele me ajudou a me limpar, me deu água, me deixou só antes de eu sair. Não há nada para Lionel encontrar. — Não há marcas. Nenhum perfume diferente. Nada… — murmura mais para si mesmo, parecendo levemente frustrado. Mas não recua por completo. Continua ali, tão perto que consigo sentir o calor dele. — Posso ir para o meu quarto agora? — pergunto, mantendo os olhos firmes nos dele. — Ronan e Caterina vão acordar em breve. Não quero que nos vejam assim. Ele sorri — aquele sorriso perfeito, controlado, que esconde tudo. Afasta a mão, mas seus olhos continuam em mim, como se estivesse gravando cada detalhe para inspecionar depois. — Claro. Descanse, Elara. Mas da próxima vez que precisar de um quarto só… me avise. Assim eu sei onde encontrá-la. E garanto que ninguém a incomode. Passo por ele, sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas. Quando chego à porta do meu quarto, respiro fundo, tremendo levemente agora que ele não pode mais me ver. Eu menti para ele. E ele quase sabia.♤ Donomie Krieger Depois de vivenciar coisas que muitos não suportariam, sempre me pego fazendo exatamente a mesma pergunta para mim mesmo em frente ao espelho. Quanto tempo leva até você perder para o que há dentro de você? Eu nunca tive a resposta, mas de repente sinto que estou prestes a descobrir. Pensar que depois daquela noite maldita, há treze anos atrás, eu não sentiria mais nada por ela, foi uma ilusão forçada. Uma que eu mesmo construí com as próprias mãos. Passei tantos anos fingindo que tudo o que fazia não era por ela — e quando Elara esbarrou em mim naquele corredor, vulnerável e vestida daquele jeito, meu mundo inteiro desmoronou. Só Deus sabe o quanto eu me segurei para não fazer besteira. Fiz de tudo para não procurá-la, para não saber sobre sua vida. Eu queria poder vê-la e não reconhecê-la. Estava convencido de que aquele Donomie de antes não existia mais. No entanto, assim que meus olhos a encontraram, eu não tive dúvidas: minha fraqueza ainda estava lá,
❀ Elara Vitorino Era sempre assim. Sempre que Lionel perdia o controle de algo, sempre que algo dava errado, ele vinha até mim, com a desculpa de que precisava de algo para descarregar sua frustração. No começo, a raiva sem motivo que ele sentia por mim o fazia apenas me menosprezar. Mas com o tempo, Lionel passou a querer muito mais do que simplesmente me insultar. E eu podia ver a satisfação em seus olhos sempre que conseguia me colocar em uma posição em que eu me sentisse pequena — onde ele podia fazer o que quisesse comigo, como se tivesse algum direito sobre mim. Era como se ele precisasse provar algo para si mesmo. Nunca entendi o porquê de tanto ódio, mas sabia que não era apenas isso que ele sentia por mim. E talvez fosse por desejar algo que não podia ter que sua raiva tivesse surgido. (...) Passei o dia inteiro coordenando equipes, tentan
❀ Capítulo 5 — Elara Vitorino O silêncio do quarto foi interrompido pelo som dos passos rápidos de Lionel. Ele mal esperou que eu terminasse de processar a notícia e já se dirigiu à porta. — O pai precisa saber disso. Não saia daqui até que eu volte — disse, sem sequer olhar para trás, e desapareceu no corredor. Era estranho como Lionel se referia ao padrasto como pai sempre que o controle parecia escorregar de suas mãos. E apesar da estranhesa dessa vez, não pensei demais. Levei o celular de volta ao ouvido para falar com Daphne que ainda estava na linha telefônica. — Daphne, ouça com atenção. Ninguém entra no quarto. Ninguém. Coloquem segurança na porta. Não toquem em nada. Não movam um único objeto. E forneçam à polícia todos os registros de check-in, pagamento e identificação do hóspede. Estou a caminho. Desliguei, peguei minhas chaves e saí pela porta dos fundos da mansão. Já eram se
❀ Elara VitorinoO sol começava a se infiltrar pelas frestas das cortinas pesadas de veludo marrom, espalhando uma luz dourada e suave pelo quarto, mas não o suficiente para afastar toda a escuridão das paredes escuras. Tirei os saltos e os larguei num canto da cama como se mais nada importasse, e fiquei fitando por um instante as três telas abstratas na parede acima da cabeceira — manchas de ocre e marrom que pareciam se mover com a luz que entrava. A cabeceira era grande, estofada em um tom bege claro que suavizava o ambiente. Sentei-me na cama, deixei a bolsa ao meu lado, apoiei os cotovelos nas coxas e afundei o rosto nas mãos, respirando fundo, frustrada e decepcionada.Não sabia dizer o que mais me abalava naquele momento: se eram as intenções de Lionel ao me drogar, ou o fato de ter reencontrado Donomie em uma situação como aquela, de ter que encarar sua frieza e, mesmo assim, sentir o coração acelerar.E apesar de tudo, me sentia uma pessoa terrível por ter falado daquela form
❀ Elara VitorinoAcordo lentamente, como se estivesse voltando de muito longe. O quarto está silencioso, com apenas uma luz suave vinda de um abajur. Viro a cabeça e ele ainda está ali — sentado numa poltrona ao canto, de costas para mim, olhando para a porta como se estivesse de guarda. Não foi um sonho. O cheiro dele, a forma como me cuidou, aqueles olhos que carregam anos de lembranças esquecidas em cada canto… tudo era real.Ele se vira quando me mexo.— Precisa de água? — pergunta baixo, se levantando devagar.— Sim. Obrigada.Ele me estende um copo com cuidado. Seus dedos não tocam os meus. Parece estar calculando cada movimento, mantendo uma distância que dói mais do que se ele estivesse longe.— Como se sente?— Melhor. Ainda um pouco lenta, mas… melhor. — Sento-me na beirada da cama, pés tocando o chão frio. — Agora me responde. O que você está fazendo aqui, Donomie? Depois de tanto tempo sem uma palavra… simplesmente aparece?Ele respira fundo, mas não encontra meus olhos.—
❀ Elara Vitorino A cabeça dói como se alguém tivesse partido-a ao meio. As luzes do corredor parecem piscar, distantes demais, e meus pés não obedecem como deveriam. Mal conseguia manter a bolsa suspensa em meu ombro. Fiz um grande esforço para sair do salão sem que notassem que havia algo errado comigo. Não me lembro de ter pegado o elevador. Só lembro de uma sensação estranha na garganta, de um calor que subia devagar, de tentar me manter de pé enquanto me apoiava nas paredes… e então escuridão. Até que sinto mãos fortes me segurarem com firmeza. — Não se mexa. — A voz é baixa, rouca, e deveria me assustar. Mas por alguma razão, aquele timbre desconhecido me parece estranhamente familiar. — Você está bem? Levanto o rosto com dificuldade, os olhos pesados, e não consigo distinguir claramente quem é aquele homem. Mas sinto seu cheiro: notas de tabaco escuro, madeira de sândalo e algo mais — como chuva sobre concreto molhado, limpo e intenso. Suas mãos se firmam gentilmente e







